Terça-feira, Novembro 27, 2001

Dia 17/11/2001

No sábado todo mundo almoça no Arsenal que é o único restaurante universitário aberto mesmo... Logo depois combinamos de ir ao cinema, mas quando chegamos lá a sessão só começaria duas horas depois, ou seja, teria que achar alguma coisa para fazer durante esse tempo, porque se eu voltasse para casa obviamente eu não conseguiria e nem gostaria de voltar no frio para o cinema... Por isso resolvemos ficar por ali. Havia uma exposição em um pequeno museu sobre as mandalas feitas pelos monges budistas, e fomos para lá. Eu não sabia que existia aquele lugar, e a exposição não era lá grandes coisas: uns cartazes explicando o que queriam dizer as mandalas de um jeito geral, e alguns espécimes feitos em tecido muito bonitos com algumas explicações do que queriam dizer os desenhos... Foi até legal, mas eu tive que sair rápido porque cheguei duas e meia e uma palestra começaria às 3... E era paga a palestra, obviamente. Aí tive que voltar com o pessoal para o cinema. Só que ainda sobrava tempo para fazer uma outra visita. A gente tinha recebido um papel de uns malucos que estavam andando pela praça Wilson (onde ficava o cinema) que falava sobre uma nova ‘religião’ que acreditava que os humanos foram criados geneticamente pelos extraterrestres. Eles tinham por objetivo construir uma embaixada para receber os visitantes do espaço, e outras coisas mais. Atravessamos a praça e fomos ver a exposição. Claro que era um monte de baboseira, falando tanto da internet e de livros eletrônicos (que podem ajudar a popularizar a cultura entre os povos), engenharia genética e clonagem (que pode fazer com que o homem viva para sempre) e métodos contraceptivos (que permitem ao homem de ter relações sexuais sem se reproduzir). Ainda assistimos a um filme que falava sobre tudo isso. Era uma loucura. Tinha gente que saía da sala de vídeo rindo, mas eu me segurei para não rir porque realmente não era muito educado... Eu até recebi um cd que explicaria algumas outras coisas mas ele acabou não funcionando.

A gente teve que sair correndo da salinha onde eles estavam passando o filme para poder chegar ao cinema a tempo. O cara lá tinha ficado enrolando fazendo um discurso todo cheio de palavras bonitas explicando a teoria deles... Era até interessante mas eu não queria perder o filme. Tínhamos combinado também com um amigo alemão de se encontrar no cinema também... Fomos ver AI, que até que foi um bom filme apesar de todo mundo falar que é um filme meio infantil e que não era aquela coisa toda... Depois fomos ao McDonalds onde eu ganhei um cd-rom de um guia da Europa (o McDonalds daqui está com uma promoção legal que a gente ganha sempre alguma coisa... todo mundo já tinha ganho hambúrgueres, sundae, essas coisas...).

Dia 16/11/2001
Claro que chegar em casa quatro da manhã tendo que acordar às 7 para ir para a aula das 8 não era possivel. Mesmo assim eu acordei acho que por causa do costume de acordar cedo. Isso tudo foi só para beber a coca-cola que eu tinha ganhado no dia anterior (a máquina ‘esqueceu’ de cobrar... fui tentar até a segunda vez para ver se ela estava estragada para sempre, mas da segunda vez ela cobrou...) e cair dormindo do outro lado. Eu dormi no Arsenal mesmo porque estava muito cansado para ir para casa de bicicleta ainda... Acordei só meio dia para poder almoçar e depois fui para a faculdade porque ns aulas da tarde eu tinha que comparecer... De qualquer maneira foi um dia perdido devido à vontade enorme de dormir. Uma sexta feira bem tranquila a meu ver, porque acho que ninguém fez nada depois.

Alias, hoje fazem quatro meses que eu estou aqui... O tempo vai passando mais rápido do que eu imaginava, mesmo com todas essas coisas que acontecem comigo... Estou levando tudo numa boa ainda, eu acho. :)

Dia 15/11/2001

Hoje houve uma palestra dada por um grupo de consultoria chamado Altranm que tem escritórios em várias partes do mundo (Brasil inclusive). A palestra seria sobre empregos e estágios em uma das mais de cem empresas do grupo... São 14000 empregados, e todos que estavam lá queriam alguma coisa do estilo. Só que eles não dão muitos estágios, o que deixou a maioria (inclusive eu) decepcionada. Depois houve uma pequena recepção com uns salgadinhos que eu aproveitei. Impressionante como tinha gente na recepção que não tinha participado da palestra... Todo mundo sempre gosta de uma boca livre. Eu acabei tendo que ir jantar no McDonalds porque já tinha passado do horário do jantar no Arsenal...

Logo depois disso fui encontrar o resto da galera para participar da Festa do Beaujolais Nouveau. Todo ano dia 15 de novembro é o dia que sai a safra nova do vinho Beaujolais, que é o vinho utilizado uma semana depois no dia de Thanksgiving lá nos Estados Unidos. A festa mais animada, segundo disseram, seria na praça Saint-Pierre, que é justamente do lado da residência do pessoal... Fizemos um grande grupo lá (depois de atrasos na hora de sair graças ao pessoal enrolão), encontrando com o pessoal do INSA que também compareceu em peso. Dos 16 brasileiros só dois não conseguiram ir... Mas sempre tem uns outros brasileiros e portugueses para completar o grupo. Foi uma bagunça, com cada um comprando uma garrafa de vinho, sendo que era uns 10 reais a garrafa... O vinho era muito bom. Eu bebi uma garrafa e meia... Teve gente caindo de tão bêbado, era muito engraçado. Houve apenas um momento de stress porque um francês bebado pegou a toca do Coruja e jogou para longe... Como ninguém mais estava conseguindo falar francês quase houve uma briga, mas a gente conseguiu contornar... O mais legal foi ver todo mundo torto para casa...

Dia 14/11/2001

Hoje foi um dia até legal. Depois de todas as aulas e coisas do estilo, e de comer rápido no Arsenal, fomos de bicicleta correndo para uma reunião que haveria no Daniel Faucher com o conselho de residentes. Claro que eu não imaginei que seria uma reunião muito séria. Mas acabou que era. Cheguei no quinto andar de um dos prédios (desde quando há uma reunião no último andar de um prédio?) e encontrei um grande salão. Escuro, mas era um salão. Foi uma enrolação para conseguirem ligar a luz daquela porcaria, mas depois de mandarem a gente descer e subir de novo a sala estava com luz e a reunião iria começar. Falaram primeiramente sobre os prédios que já foram abertos e quais seriam abertos ou não. Felizmente me deram uma boa notícia: os nossos prédios abririam definitivamente no final de janeiro ou no começo de fevereiro. Os que já foram abertos vão sofrer novas intervenções depois de fevereiro, já que eles só foram reparados provisoriamente para que alguém pudesse entrar... Eles iriam usar o nosso prédio como moradia backup para quem tivesse o apartamento arrumado nos outros prédios, e assim eles iriam liberar apenas em julho... Por isso que mais uns dois a três meses é até uma boa notícia. De qualquer maneira, a próxima foi ainda melhor. Para quem tinha sido remanejado para outras residências universitárias o aluguel não seria cobrado, ou seja, até fevereiro eu moraria de graça. Tirando que o quarto é uma porcaria morar de graça o deixa um pouco mais bonito e aconchegante... Mas o resto da reunião foi ridículo. O conselho de residência não conseguia silêncio para falar, principalmente porque não era realmente o conselho de residência, mas apenas os candidatos para a próxima eleição. Pelo menos a diretora da nossa residência estava lá e dizia que todas as informações eram verdadeiras e que podíamos acreditar... Depois de todo mundo tentando falar ao mesmo tempo reclamando de todas as coisas que eles falavam ou deixavam de falar a reunião acabou... Tive que voltar para casa naquele frio, mas pelo menos sabia mais um pouco sobre a minha situação...

Dia 13/11/2001

Continuam as aulas... No meio delas eu tentei ir ao correio para enviar um pacote, mas não consegui... Até aqui a fila no correio é enorme. Só deu vontade de ficar em casa mesmo... Mas não podia porque em casa não tinha comida hehe. Está começando a virar padrão isso. Fiquei lendo livros na biblioteca (oras vejam só!).

Dia 12/11/2001

Mais uma segunda feira com aulas inúteis. Esses franceses só aprendem coisas que eu já sei. Provavelmente só no próximo semestre eu vou aprender algo de diferente... A única coisa legal foi na hora do almoço, que eu fiquei falando com um húngaro que estuda na nossa faculdade, e eu fiquei falando da minha viagem pela Hungria. Ele nasceu em Pécs, e ficou surpreso de eu ter ido lá, porque geralmente os turistas só vão a Budapeste e acabou. Eu realmente conheci mais que isso lá... Até ele ficou surpreso de eu ter ido em um museu de porcelana em Pécs (segundo ele é a especialidade da região), e que a gente fez tudo aquilo que eu contei nos dias anteriores... Ele não conhecia aquele museu da história da Hungria, e aí a gente começou a discutir o porquê da Hungria sempre se dar mal em todas as guerras... Ele falou que o país realmente se ferrou na primeira guerra meio de graça, porque até a Romênia, que era um país pequeno, acabou ficando com território do país dele no final da guerra...

Dia 11/11/2001

Mesmo tendo chegado em casa meio tarde, eu acordei cedo. Eu havia esquecido de fechar a janela externa... Aí não há aquecedor que agüente esse frio todo... Pelo menos tive tempo para arrumar as pastas com os plásticos que tinha comprado ontem, e arrumar toda a papelada. Arrumei o quarto também... Estava até começando a parecer quarto de gente. Na hora do almoço fui comer até não agüentar mais no Flunch lá no centro, e depois de saber que um já tinha achado apartamento para morar, voltei para casa... Foi um frio tão horrível que na hora de jantar eu acabei comendo pão e queijo em casa mesmo com preguiça de sair na rua...

Terça-feira, Novembro 20, 2001

Dia 10/11/2001

Mais um fim de semana em Toulouse... Acordar de manhã em um sábado para arrumar quarto não é uma coisa agradável. Principalmente quando se pode pegar um trem e depois de algumas horas estar visitando um castelo. Mas não estava muito com vontade mesmo... Levantei e fui para o centro, passando um frio do cão, para comprar pastas, plásticos, essas coisas, para arrumar meus documentos e as porcarias que eu trago em todas as minhas viagens (papéis, entradas, cartões, essas coisas). Fui almoçar no Arsenal (ah, eles têm só o almoço no sábado... o resto do fim de semana é por minha conta).

Depois do almoço eu fui ao cinema com a galera. Na verdade eu acabei indo sozinho, porque fui o único a querer ver American Pie 2. Os outros foram ver um filme francês que se chama Le Velo. Eu não estava com muita vontade de pensar para rir, e então fui ver essa comédia mesmo... Acabei gostando, e rindo bastante, mesmo estando sozinho. Sempre em francês a gente perde um pouco das piadas... Mas nada grave... Saí do cinema e fui correndo para casa, porque tínhamos marcado o jantar na casa das garotas às 7. Eu não tinha nada para levar além de duas garrafas de vinho mesmo...

Chegando lá (depois de quase morrer subindo o morro que elas moram de bicicleta no frio...), encontrei o Daniel já por lá olhando as garotas fazerem comida mexicana. Aliás, o apartamento delas é enorme. É um T2, que significa que tem duas peças, mas na verdade são três: a cozinha é enorme, com uma salinha de jantar... Só tem um quarto, e elas dormem juntas, deixando uma sala enorme com um sofá... E elas não pagam muito não. Eu vou tentar achar um desses para mim... Elas fizeram umas tortillas, com uma carne moída mais picante que não sei o que, e acabou ficando muito bom. Tinha umas saladas para colocar também no meio... Eu não sabia comer muito bem aquilo, mas como estava com fome eu dei um jeito. Nós cinco acabamos não falando muito francês porque todos estamos no estágio que, se ficar falando francês, a gente não consegue falar muita coisa. Temos que treinar, mas acho que não era a hora. Então saía muita coisa em inglês, que aí elas se sentem mais à vontade, e a gente consegue falar alguma coisa também... Depois de comer o jantar delas, foi a nossa vez. Como eu não sabia cozinhar, eu fui lavar louça, porque é uma coisa que infelizmente eu sei fazer. Bilhões de coisas para lavar, mas fiz o trabalho direitinho. O Daniel já começou a preparar pimentões recheados com carne moída (esquecemos que comida mexicana levava carne moída e repetimos...) e arroz. Eu fiquei lá ajudando, cortando algumas coisas, lavando outras... Mas só checando o que ele tava fazendo. Eu fiz a salada pelo menos. Enquanto isso o Ivan as divertia com as bilhões de fotos que tiramos durante a viagem... Depois de tudo pronto e cheirando muito bem (afinal, era nosso jantar), sentamos novamente para comer... Eu já estava cheio, mas fiz questão de comer mais. Acabei me enchendo mesmo. Ainda por cima elas tinham feito como sobremesa brownies, e estava muito bom... Quase morri de comer. Finalmente umas refeições boas depois que eu perdi minha cozinha... Ficamos um pouco conversando, e falando da viagem (ainda não havia acabado as fotos!)... Já estava meio tarde, mas ainda tinha mais um trabalho para a gente. Arrumar tudo. Elas falaram que não precisava, mas eu achei meio chato deixar tudo uma bagunça... Lavamos e enxugamos toda a louça (e como elas tem louça!), e deixamos tudo mais ou menos em ordem. Pelo menos levamos o elogio de sermos os melhores convidados que elas já tiveram, já que os outros deixavam tudo como estava e iam embora... Peguei minha bicicleta e segui com o Ivan para o Chapou. Até que não estava mais tão frio depois de alguns copos de vinho...

Dia 09/11/2001

Aula às oito da manhã... Acabei desistindo de sair nesse frio. Com esse vento cortante e essa temperatura abaixo de 5, não dá para chegar a algum lugar rapidamente... Prefiro ficar na minha cama a chegar na aula meia hora atrasado. Acabei indo para a faculdade só as 10 e meia, horário que eu tinha combinado com o Daniel e com o Ivan de fazer o acerto de contas da viagem para o Leste. Ficamos umas duas horas em torno de uma planilha no Excel, mas chegamos a um acordo preliminar. Eram 6 moedas diferentes, e estava meio complicado. Mas muito melhor que a galera que foi para Espanha e Portugal, que não tinha nem começado...

Depois das aulas da tarde, fiquei conversando com um marroquino que teria o primeiro encontro da vida dele na França. Na verdade, ele me explicou: é o primeiro que ele consegue marcar com uma mulher que já havia visto a cara dele antes. E por isso ele estava animado. Antes ele sempre marcava com a garota por telefone, ou pela internet, e depois do primeiro nunca acontecia o segundo. Era muito engraçado ouvir o cara falando isso...

Acabei jantando no Arsenal de novo. Provavelmente vou fazer isso enquanto eu estiver no Chapou. A comida é uma porcaria, mas é melhor que ficar comendo pão em casa. Pelo menos alguma proteína eu como (se bem que é pouca... mas é a vida). Fomos lá pro quarto dos brasileiros tomar mais vinho... Acho que vamos acabar com o vinho do Porto deles...

Dia 08/11/2001

Um dos dias mais felizes que eu tive aqui. Tinha encontrado ontem a Marie Cristine, uma das pessoas do Crous que cuida da gente. Ela tinha dito que talvez tivesse novas notícias sobre a nossa residência. Ela falou isso logo que eu tinha dito que rolava a história de que o Daniel Faucher não iria abrir até o ano que vem... Fui querer tirar a história a limpo hoje de manhã... No meio do caminho eu e o Ferrari, que eu tinha encontrado na rua também, encontramos uma francesa que morava lá também, e que tinha ouvido falar de uma garota que tinha conseguido um quarto depois de chorar e espernear por lá... E que teria ainda outros abertos e que poderíamos entrar...

Chegando lá no Crous, não deu outra. A Marie Cristine nos fala que o Daniel Faucher estava realmente fechado, e que a empresa que cuida da reparação tinha dito que logo os nossos prédios estariam fechados até julho. Não gostei muito da notícia não... Também não tinha quartos extras no Arsenal. O jeito seria procurar apartamentos fora ou ficar no Chapou... É a vida. Ficamos lá falando disso, e da Mutuelle, que segundo o Ivan também não estava certa. Teríamos que ir lá consertar o erro deles, já que estavam trocando de software e tinham perdido nossos documentos... Depois foram chegando outros para saberem da história, e cada um que chegava levava a mesma notícia ruim. Até que houve outra. Ela se lembra que tinha chegado uma carta (como poderia ter se esquecido?) dizendo que nossa bolsa iria diminuir. Como nossa bolsa estava atrelada ao dólar, quando o Euro subiu, a nossa bolsa deveria cair... Perdi 500 francos por mês só por causa disso. Porque diabos o dólar tinha que cair exatamente no nosso ano? Resolvi sair dali o mais rápido possível antes que viesse outra dessas notícias...

Depois do almoço eu fui à Mutuelle para acertar as coisas. Depois de uma pequena discussão com a mulher que me atendeu, ela fez um número na securite sociale para mim, e a partir de agora eu teria reembolso de tudo relacionado a médicos... Depois disso tínhamos combinado de procurar apartamentos, mas conseguem me perder uma folha que tinha todos os números anotados... Assim, eu desisto de tudo, e fui para a internet ficar lá procurando coisas para ler... Essa vida não dá! Tem que dar algo certo!

Dia 07/11/2001

Ah, malditas provas. Acordei cedo para chegar na faculdade e ainda poder estudar um pouco para a prova de sistemas operacionais. Tentei estudar um pouco em casa antes, mas tou realmente sem inspiração. Além do mais, é uma matéria que eu já fiz no Brasil, e deveria ir bem sem estudar mesmo... Mas fiquei meio com medo do que aconteceria durante uma prova em que tudo está escrito em francês. Até em inglês eu iria bem, mas francês... Até que não foi tão ruim quanto eu achava, mas fui pior do que poderia ter ido. A prova em si estava fácil, e não adiantava mesmo eu ter estudado mais. Era muito uma prova do tipo de chegar na hora e pensar, e não de decorar coisas. Fiz lá o que deu, tentei enrolar escrevendo em francês (e obviamente não consegui porque não existe enrolar nessa língua). Logo depois da prova eu corri para o Crous para pedir ajuda do governo (finalmente). Deixei o papel lá e a mulher disse que a gente iria receber alguma notícia em quinze dias... Durante o jantar lá, com a galera, eu e o Ivan fomos convidados por duas americanas amigas nossas para jantar na casa delas no domingo. Na verdade, era um convite para fazer jantar. Combinamos de elas fazerem algo e nós fazermos algo... Logo depois que elas foram embora a gente pensou de convidar o Daniel, o mestre-cuca da galera... Passar vexame fazendo comida é difícil...

Dia 06/11/2001

Depois de uma viagem estressante, nada melhor que chegar para a aula 8 da manhã (porque eu não sabia quando eu teria aula realmente) e descobrir que eu só teria aula às duas da tarde. Fiquei na internet até a hora da aula... Descobri na hora do almoço que teve gente que recebeu já 2000 francos de ajuda do governo para os afetados pela explosão, e que iriam receber mais 1000. Eu fui até tentar pedir ajuda lá no CROUS, mas só consegui pegar o formulário... Amanhã eu tentarei levar todos os documentos necessários... Esse dinheiro viria em boa hora, para pagar as despesas de viagem (ao menos uma parte delas)... À noite foi só um jantar no Arsenal (ah, restaurantes universitários...) e depois fui para o quarto do pessoal de lá, para beber um pouco do vinho do Porto que eles compraram em Portugal durante o feriado... A viagem deles foi bem legal também, e espero faze-la depois...

Dia 05/11/2001

Tivemos esperar de uma e meia até umas cinco da manhã por lá. Só tinha uns bancos desconfortáveis, em um lugar onde o aquecimento não funcionava, e estava realmente frio... Até meus ossos reclamaram de tanto frio. Eu não consegui dormir de jeito nenhum. Se eu soubesse que havia banheiros abertos lá eu teria ido dormir lá dentro. Depois de tanto sofrer, acordei, comprei uns hambúrgueres no McDonalds com os marcos que eu tinha, e pegamos finalmente um trem francês. Como eu senti falta daquele trem da sncf...

Chegando em Strasbourg, perto das sete e meia, levamos outro desolé quando fomos ao caixa trocar a passagem para uma direto para Toulouse. Não havia mais lugares no trem de Lyon para Toulouse (que iríamos pegar em Lyon...). Então tivemos que desembolsar mais 150 francos só para ir de Strasbourg a Paris, e depois trocar de trem...

Mais uma pequena espera, mais uma viagem. Até Paris foi bem tranqüilo, dentro de uma cabine estranha. O trem era alemão, não sei porque. Chegando em Paris, mais uma mudança de estação, e então tivemos que passar pelo metrô. Chegando na gare Montparnasse, comemos umas baguetes (até tinha uma promoção muito boa, e o pão estava muito bom também) e entramos no TGV para Toulouse. Na verdade fomos até Poitiers (o mesmo trem que pegamos quando fomos para La Rochelle no terceiro dia de França) e trocamos por outro para ir finalmente até nossa cidadezinha querida... Mais uma viagem sem muitos problemas. A não ser que você ache que um garotinho chato seja um problema. Ficou gritando no nosso ouvido a viagem inteira. Mas nada de grave, porque era engraçado ver uma criança de poucos anos falar mais francês do que eu falo... Mas nada grave. Fiquei lendo meu livro até chegar em Toulouse... Era já quase 9 horas... Pegamos o ônibus para casa (ele estava bonitinho nos esperando no ponto... finalmente algo dando bem certo) e chegamos... Finalmente... Fiquei até feliz de ver minha caminha. E de ver o aquecimento funcionando. Tá certo que ele não esquentava porcaria nenhuma, mas estava ligado. Joguei as coisas pelo chão, e fui dormir novamente.

Dia 04/11/2001

Mais uma vez acordando cedo. A gente deveria estar na estação de ônibus antes das 8, e o café abria às 7. Chegamos lá embaixo um pouco antes, e comemos até bem. Infelizmente a quantidade de pão era limitada por pessoa. Mas eu roubei mais uma fatia só para poder comer mais geléia... Depois saímos correndo pela cidade até a estação de metrô, para só perto das 8 chegar lá... Gastamos um resto do dinheiro comprando suco e biscoito em um mercadinho muito do careiro, e ficamos esperando o ônibus. Ele atrasou mais de meia hora, ou seja, não precisaria ter corrido tanto. Para variar. Mas saímos sem problemas em direção a Munique... Começava a viagem de volta para casa.

Chegando em Munique, tivemos que esperar umas duas horas para que o escritório da Eurolines abrisse. E isso só para nos dizer que o ônibus estava cheio, e que só haveria ônibus no dia seguinte. Eu não teria mais um dia para ficar lá e então resolvemos ir até a estação de trem para saber o que faríamos. Mais uma vez andamos de metrô sem pagar, mas só até a estação. Lá tivemos que nos informar sobre uma passagem de trem muito mais barata, para um grupo, utilizando os trens regionais, muito mais lerdos. As pessoas do caixa nos diziam que eu não poderia mais utiliza-lo, mas do nada apareceu uma italiana (ao menos não falava inglês e nem francês, só alemão e italiano) e nos ajudou a comprar em outro caixa a tal da passagem interna, e mais uma passagem de Karlsruhe até Strasbourg, que era muito mais barato...

Pegamos esses trens. Na verdade, de Munique até Karlsruhe é bem perto, mas tivemos que mudar duas vezes de trem... Os trens são bem lerdos mesmo, e a gente tem que correr quando chega um para chegar no outro com segurança e não perde-lo... E perder um trem ali era realmente o que eu não queria fazer, porque senão arriscava de ficar preso na Alemanha mais um dia, e chegar algumas horas antes da prova... Chegamos depois de muito sofrimento em Karlsruhe. Mas nada de ter acabado a viagem... Estava apenas começando...

Dia 03/11/2001

Essa rotina de ficar acordando muito cedo já estava me matando. Acordar cedo, arrumar tudo, descobrir que a mulher do café tinha chegado mais cedo e arrumado nossos kits... Fomos de metrô, pagando só dois tickets (não tínhamos dinheiro para um terceiro...) e chegamos sãos e salvos à estação de ônibus... Dessa vez em direção a Viena.

Chegando de novo em Viena, no local de sempre, deixamos as malas na estação de metrô e trens regionais ali perto para não perdermos tempo. Já tínhamos um albergue reservado em outra parte da cidade, mas preferimos ir até o Shobrunn antes... Chegando lá, ele não pareceu tão imponente quanto o de Versalhes. Mas ele realmente é maior, em termos de área construída. Os jardins são menores. Compramos ingressos que davam direito a guias de áudio, e fomos andando pelos 40 quartos que tínhamos direito. Havia mais ainda para ver, mas era só com um tal de cartão vip que eu não sabia que existia. O castelo está muito bem conservado, porque ele foi usado até o fim da primeira guerra (se eu me lembro bem). Muitas das salas falam da imperatriz Elisabeth (Sissi para os íntimos), que foi tipo uma princesa Diana da época, mas viveu por muito mais tempo e era a queridinha da Áustria... Ela morreu esfaqueada por um maluco na Itália... O Franz-Joseph, marido dela, a amava muito... E isso tá escrito por todo o castelo. As histórias são bem interessantes, a decoração maravilhosa, e tudo muito bem organizado... Valeu muito à pena. Teve até direito a retrato da Imperatriz Leopoldina, e falou no guia que ela foi para o Brasil... Depois foi a tradicional visita aos jardins. Eles não estão tão bonitos como acho que eles devem ser, por causa do começo do inverno... Só tinha grama lá, porque as flores todas tinham sido tiradas. Foi uma pena. Além disso, estava meio frio, mas andamos até o final, onde tinha uma fonte com o Poseidon, e subimos um morro onde a Maria Teresa construiu um monumento gigante... Depois de algumas fotos descemos de novo para comer algo e prosseguir com o passeio.

Fomos de novo ao centro, onde iríamos visitar o interior do Hofburn, já que no primeiro dia a gente chegou depois das 4 e meia e não conseguimos entrar. Dessa vez foi bem tranqüilo, pagamos o ingresso combinado (a mulher do caixa conhecia o Brasil e falou com a gente até) e entramos. Fomos primeiro ver os quartos da imperatriz Sissi, com tudo o que tinha direito de móveis e história... A visita nesse foi um pouco menos interessante, primeiro porque eu estava cansado, e segundo porque dessa vez eu não tinha o guia e só ficava lendo algumas coisas... Depois de passar por tudo aquilo, andamos até onde estava a prataria das dinastias dos Hapsburgos. É impressionante o dinheiro que eles gastavam... A quantidade de jogos diferentes era absurda! Não dava para tirar fotos daquilo, mas eu realmente queria... Era uma coisa mais linda do que a outra. E tinha de tudo. Até umas caixas gigantescas, com milhões de peças, com a plaquinha do lado dizendo que era o conjunto de chá para viagem. Depois eu fico impressionado com o que os brasileiros gastam com o governo...

Já estava ficando meio tarde, mas queríamos ainda entrar no museu de arte que ficava ali pertinho. Como o museu fechava às 6, daria tempo de entrar... O ingresso foi ridiculamente barato perto do que estava escrito, mas acho que era porque as exposições de coisas gregas, romanas e egípcias estava fechada... Além disso, os guias de áudio também eram de graça. O museu era enorme. O prédio foi construído parecendo um palácio, mas foi desde o começo feito para ser um museu. Havia bilhões de coisa para escutar no guia, com vários minutos de explicação para cada um... Não tínhamos tanto tempo, então fiz uma visita rápida. Obviamente não vi muita coisa. Mas com as explicações do guia fica muito mais divertido ver um museu de arte... Acho que quando entrar em um museu de arte maior eu vou querer passar o dia inteiro com uma coisinha daquelas brincando... Quase fomos enxotados para fora do museu porque estavam fechando já... Acabei não vendo muita coisa, mas valeu à pena.

Voltamos para pegar nossas coisas, e fomos para o albergue. Andamos um pouco demais porque não quisemos pegar o ônibus depois do metrô. Até que não foi muito, mas já estava um pouco cansado de carregar aquela mochila toda quando finalmente chegamos lá. Ficamos os três em um quarto que era partilhado com outro cara, um romeno que conhecemos depois. O cara era até engenheiro civil! Interessante isso. De repente ouvimos uma galera lá fora falando português e fomos ver. Eram brasileiros que estão morando em Stutgart, do mesmo programa. Eu já até conhecia alguns da Oktoberfest. Trocamos umas informações sobre a Áustria porque eles iriam gastar o dia seguinte passeando por lá. Depois teve que rolar um jantar, porque estávamos com muita fome... Deixamos os brasileiros pra lá e fomos procurar um restaurante. Pegamos o Frommers novamente, e ele não nos deixou na mão. Havia um restaurante estrelado nele, que ficava perto do albergue. Como a gente precisava gastar nossos Schillings por ali, entramos logo. Ali pedimos umas comidas tradicionais, que eu não vou lembrar o nome por serem em alemão, mas foi absurda a quantidade de comida. Veio um bife à milanesa gigantesco, do tamanho de um prato. Quantidades equivalentes de comida chegaram para cada um de nós. A garçonete tinha falado que não era muito, mas acho que ela pensava que eu era um elefante... Não entendi, mas fui comendo. Todo mundo estava morrendo de fome, principalmente depois de vários dias comendo mal. Acho que eu nunca comi tanto na minha vida... Além disso, pagamos muito mais barato porque eles já estavam fechando, e o cara fez uma conta de cabeça muito por baixo. Pagamos e saímos sem reclamar muito... Foram uns 60 francos, mas comi muito bem, com direito a salada e carne como eu nunca tinha comido na Europa... Foi só o tempo de chegar no quarto, não encontrar o romeno (a noite deveria estar boa...), tomar banho e cair no sono. Afinal, viagem cedo era rotina... Um detalhe final. A porta do albergue era show de tecnologia. Era tipo um sensor que depois de apertar um botão passava na frente da fechadura e ele abria a porta... Muito legal.

Dia 02/11/2001

Dormir bem... Fazia tempo que eu não sabia o que era isso. Mas finalmente passamos uma noite tranqüila, com várias horas de sono, sem passar frio... A única coisa que não muda é acordar cedo, porque nesse inverno horrível temos que aproveitar todas as horas em que o sol está lá fora. Tomamos um café bem bonzinho, tirando que ele não era ilimitado igual Budapeste. Eu pedi um suco (na verdade dois copos) de laranja, e fomos pagar o hotel. Acabou que o suco era pago e ninguém tinha me avisado. Da próxima vez eu pergunto antes de pedir algo assim...

Fomos até o mosteiro, e dessa vez o monge estava por lá. O Daniel falou com ele no telefone, e esperamos alguns minutos na porta até ele chegar. Ele já é bem velhinho, e não estava conseguindo falar muito francês direito... Na verdade, nem o inglês ele estava conseguindo falar também, apesar de um pouco melhor. Ele ficou interessado na nossa história, e começou a nos levar para um passeio guiado pelo mosteiro. Não poderia ser uma visita guiada melhor. Ele começou mostrando onde ficavam as crianças durante o período escolar (estávamos em um período de férias, e ninguém estava lá). Depois onde ficava o resto, e quando chegamos a uma das portas principais, por onde entraríamos, chegou um carro com um monge muito mais novo, que falava inglês muito bem (e não falava muito francês). O monge mais velho pediu ao mais novo para que ele nos guiasse, já que ele teria mais tempo... Infelizmente eu esqueci o nome do nosso amigo monge. O mais velho, enquanto esperávamos pelo garoto descarregar umas coisas que ele tinha trazido de carro, nos contou sobre a história do mosteiro. Com 1000 anos, ele foi construído pelos monges beneditinos logo quando a Hungria foi criada, convidados pelo primeiro rei da Hungria, para que o país pudesse ser protegido também... A partir de um certo momento na história (não me perguntem datas e nomes porque eu realmente não decorei tudo isso...), um rei da Hungria mandou os beneditinos cuidarem da educação. Seria um ?chega de só rezar. Quero ver trabalho?, mas não era bem assim... Acho que alguém que acredita no negócio vai acabar me batendo se ouvir eu falar isso. De qualquer maneira, desde essa época eles cuidam do ensino de várias crianças, em regime de internato. No caso, esse nosso amigo monge novo (que vou chamar de João só para ficar mais fácil, e depois eu vejo se lembro do nome dele) estudou ali, e acabou virando monge por causa disso também... Ele não chegou ainda a fazer seus votos finais, mas está indo para lá. O velho monge nos convidou várias vezes para almoçar, oferecendo até para antecipar o almoço pra gente só para que comêssemos ali, mas resolvemos não aceitar, já que teríamos que estar em Budapeste bem cedo para devolver o carro, ver o resto da cidade, e ainda ir para o concerto à noite.

O João nos levou para conhecer a grande igreja. Mais uma vez, o papo sobre a arquitetura misturada, já que o mosteiro foi parcialmente destruído muitas vezes e, segundo ele, o mosteiro nunca teve dinheiro suficiente para derrubar tudo e reconstruir tudo do zero. Mas assim ela ficou também cheia de detalhes diferentes. Ele nos contou sobre várias coisas sobre a ordem, e sobre seu dia a dia. Como ele não é ainda monge já com os votos finais, ele pode ainda desistir sem problemas graves. Foi aí que eu comecei a sacar o malandrão. Ele tem a maior cara de ser o monge mais engraçadinho do mosteiro. Outra coisa que ele foi explicar foi uma capela, que mostrava em um vitral algumas imagens da vida de São Benedito. Uma das imagens mostra que São Benedito, para se livrar das tentações que estavam atormentando ele, se joga no meio de espinhos. O João falou então que a vida de São Benedito era sempre muito bem tranqüila e que a coisa mais radical que ele tinha feito era isso. Então, por isso, ele achava que esse episódio de se jogar nos espinhos era em sentido figurado... Sei... Ele tava é querendo tirar o dele da reta, isso sim. Depois a gente foi visitar a parte central do mosteiro. Eram várias portas, que davam para a igreja, para o refeitório, para várias coisas. Mais um simbolismo. Como era um círculo (mais para um quadrado) fechado, simboliza que o monge deve viver sempre aquelas mesmas coisas. Rezar, comer, obedecer o monge mais importante (que tem os quartos que dão também para esse ?circulo?) e dormir. Nas paredes há também imagens do sofrimento de Cristo, lembrando aos monges que é para eles sofrerem durante a vida (boa essa né?). E por último, a parte central, que é um jardim muito bonitinho, mas que não fica aberto. Apenas janelas que deixam a imagem meio turva deixam a gente olhar para lá. Isso significa que ali é o paraíso, e que só podemos olhar para lá dessa maneira, antes de morrermos... É até interessante isso. Eu não tirei mais fotos porque segundo as placas da entrada era proibido tirar fotos lá dentro... Depois visitamos o refeitório, onde há várias pinturas nas paredes (que sempre mostravam cenas de refeições relacionadas a histórias bíblicas), e depois saímos para uma sacada ali do lado onde fica uma bela visão da cidade... Depois fomos para a biblioteca. É uma biblioteca imensa, cheia de livros. Só que ali só havia 10% de todos os livros que eles possuíam. É a maior biblioteca dos beneditinos no mundo, e a maior biblioteca particular da Hungria. Segundo ele, ?O Nome da Rosa? foi inspirado naquela biblioteca. Também tem altos simbolismos. Tudo dentro da biblioteca (esculturas, pinturas) era baseado na mitologia grega, o que não combina muito com igreja, mas combina com sabedoria, segundo os antigos... Eles fizeram isso justamente para contrastar as duas coisas: há tudo isso de mitologia, e na porta apenas uma pequena cruz, mostrando que já que você tem fé, você pode ter sabedoria também... Interessante... Finalmente visitamos o local de trabalho do nosso amigo, que é professor de alemão e outras coisas ali também. Ele cuida de 60 garotos (é tipo o tio deles, fazendo chá e coisas assim para eles) antes e depois das aulas. Segundo ele não deixam ele ter muito tempo para se dedicar à meditação que ele deveria fazer, e mesmo de algumas orações ele não consegue participar... É vida dura, segundo ele...

Nos despedimos, e fomos correndo para Budapeste. Deixamos as malas no hotel (mais uma noite lá!) e fomos devolver o carro logo, porque seria meio difícil ficar andando com ele pela cidade... maior trabalho de conseguir estacionar o carro, e não valeria a pena porque teríamos que pagar o estacionamento de qualquer jeito... Fomos passeando pela cidade, e até fomos andando até uma sinagoga muito importante: é a segunda maior sinagoga do mundo, só atrás de uma em Jerusalém. Isso é até estranho hoje em dia, porque não há tantos judeus assim em Budapeste... Infelizmente, porque era dia 2, o museu lá dentro estava fechado, e só pudemos olhar por fora mesmo... Na parte de trás da sinagoga há uma árvore de metal, onde cada folha representa um judeu morto (acho que da região) durante a segunda guerra... Cada folha tem um nome escrito. Eu não pude ver os nomes escritos porque tinha uma grade na frente... Antes de comer passamos na frente do museu nacional da Hungria. Fizemos um pequeno lanche no Burger King, e entramos no museu. Lá está a história da Hungria, desde que ela foi formada, passando pelo domínio dos turcos, depois pelo domínio pelos austríacos (os Hapsburgos de Viena) e acabando pela influência comunista depois da segunda guerra... Muito bom o museu, com algumas coisas só em húngaro, mas deu para aprender bastante história... Descobrimos ao menos que a Hungria sempre foi um saco de pancadas, e que sempre entrou em guerra para perder, a não ser quando os turcos foram expulsos. No resto, mesmo quando não tinha nada a ver com a história, eles entravam e perdiam. Nota-se, por exemplo, na primeira guerra. Eles só entraram porque a Áustria quis entrar, e como as coroas estavam unidas... No final a Áustria até ganhou território, enquanto ao Hungria perdeu dois terços do seu... Interessante isso também... Havia um manto que data dos primeiros reis da Hungria por lá, que voltou depois da segunda guerra (estava com os americanos, vejam só). Depois do banho de cultura fomos até o mercado da cidade, onde tínhamos passado na manhã que saímos de Budapeste... Nada de mais, só um mercado com várias comidas diferentes e coisas para turistas... Saímos correndo para irmos visitar a praça dos heróis e um parque que tinha um castelo (que foi construído durante uma feira, e acabou ficando... como a torre Eiffel). Chegamos lá já de noite. Nesses lugares eu tirei fotos, mas ficou tudo borrado infelizmente. Mas as cenas são legais. Fomos até o parque, mas não dava para tirar foto do castelo de longe porque na frente tinha um rinque de patinação enorme, com milhares de pessoas lá patinando... Tivemos que ir andando até lá. Tiramos algumas fotos do castelo... O Ivan abusou, tirando várias fotos com o tripé dele à noite, e a gente quase se atrasou para o concerto...

Voltamos correndo no metrô, sem pagar mesmo. Tivemos sorte. Chegamos ao hotel só com tempo de trocar de roupa e já voltar para o metrô mais bonitinhos, porque daquele jeito a gente não ia nem entrar na Ópera Nacional. Dessa vez usamos os tickets de metrô direitinho, e fomos controlados. Pelo menos não precisamos ouvir um cara reclamando em húngaro que tínhamos que pagar as coisas... Chegamos à Ópera, tivemos que desembolsar mais alguns florins para guardar o casaco (isso é meio chato... devia estar incluído no preço do ingresso, que era 100 vezes mais caro) e fomos para nossos lugares. Realmente, era muito perto... O concerto foi maravilhoso. O Requiem de Verdi. Em um dia de finados. Muito legal. Um coral com mais de 100 pessoas, mais os tenores e as sopranos... Espetacular. Depois da saída demos uma andada pela Ópera porque é muito bonito lá por dentro... E aí foi hora de passear pelas ruas de Budapeste procurando algum lugar para jantar. Apesar de estarmos com um pouco de dinheiro, ele não seria suficiente para pagar o hotel, e teríamos que tirar mais dinheiro no banco... Mais taxas. Então acabamos indo no McDonalds mesmo, e comendo uns hambúrgueres... Depois ficamos andando na rua para pedestres, e a cada 2 segundos vinha um cara querendo levar a gente para algum lugar com striptease ou algo do estilo... É uma decadência... Depois de falar o 10o ?não, não quero?, tive que levar um ?you are not a sex machine????. Só rindo mesmo... Depois de cansar de tanto levar dessas, acabamos indo para o hotel mesmo, onde arrumamos as coisas... Tivemos até um certo desentendimento com a nossa amiga da recepção, porque pedimos o nosso café para mais cedo (um kit café para cada um) e ela disse que ninguém tinha avisado antes... Mas tínhamos... Bem, ela não poderia fazer nada mesmo. O certo era dormir.

Dia 01/11/2001

Eu acho que não agüentei muito tempo dentro da barraca. Além de estar muito apertado e frio, o vento estava muito forte e a ?parede? da barraca estava encostando em mim. Como ela estava ainda meio úmida depois daquela chuva que ela tinha tomado na Áustria, eu já achei que não iria dar muito certo aquilo... Eu saí (não sei qual hora era) e entrei no carro mesmo para dormir. Peguei tudo que estava atrás (e tinha bastante coisa) e joguei para os bancos da frente do carro. Acho que foi a melhor idéia que eu tive na viagem. Lá dentro eu só não dormi muito bem porque eu não conseguia me esticar (as pernas ficavam dobradas mesmo), mas o resto estava tranquilíssimo. O vento estava muito forte mesmo, e todas as árvores balançavam enormemente (imaginem a barraca), enquanto que com o carro não acontecia nada... Ainda por cima dentro do carro era mais quentinho também (mesmo com a janela um pouco aberta que eu deixei). O Daniel e o Ivan depois ficaram reclamando que a barraca parecia que ia sair voando... Depois de arrumar tudo e de tomar o café (continuamos com a geléia, queijo e salame que tínhamos comprado), eu fui pagar o camping. Segundo o vigia da noite passada, tudo iria ficar em torno de 4000 florins. Só que quando eu cheguei na recepção para ver quanto era, acho que o cara lá não sabia muito inglês, e deve ter entendido que só havia uma pessoa acampando (só havia dessa vez uma carteira de estudante lá como garantia...), e me comprou 1600... Dá em torno de 40 e poucos francos isso, para os três... Normalmente a gente paga mais que isso por pessoa, até mesmo em camping... Eu nem reclamei mesmo, paguei, e fomos embora.

Agora aconteceu uma pequena discussão. Estávamos do lado de um pequeno lago de água aquecida, que até durante o inverno existem pessoas nadando lá. A água fica em torno de 28 graus no inverno (ou algo do estilo). Só que eu não queria entrar. Eu já estava meio doente, meio gripado, sem comer direito havia 15 dias, e não queria arriscar, num frio de 10 graus com vento (devia estar com sensação térmica de 0) entrar em um lago quente no meio da Hungria só para dizer que eu tinha ido, e depois morrer de pneumonia ou algo assim...O Daniel pensava do mesmo jeito, e acabamos deixando o Ivan entrar enquanto fomos encher o tanque do carro, tirar dinheiro num caixa na cidadezinha ali perto e ver o lago Balaton finalmente... Impressionante o frio que fazia... O vento penetrava até os ossos...

Começamos a dar a volta no lago através da estrada, indo em direção à península Tihany. Antes disso passamos por um pequeno castelinho que tinha uma vista para o lago. Toda vez que eu digo que algo tem uma boa vista para algum lugar, entenda-se: eu tive que subir uns 500 metros para poder chegar lá. Mais um exercício no meio do frio para chegar lá em cima. Ele está meio destruído, e eles estão refazendo várias partes dele para que ele vire um ponto turístico... Tiramos só umas fotos e descemos. Logo na descida fomos em uma pequena cave que estava ali do lado, e só tomamos um gole de vinho para experimentar... Como não era tão bom o vinho, ficamos só na degustação mesmo...

Chegamos a Tihany, uma pequena cidade que fica na península do mesmo nome, onde fica uma pequena igreja construída pelos Beneditinos também (a Hungria é cheia de relações com os Beneditinos, como direi a seguir). Visitamos a igreja, tiramos mais algumas fotos do lago, e fomos ?almoçar?. Dessa vez, ao invés de fazermos a farofa no porta-malas do carro, achamos um restaurante que estava fechado (graça ao feriado de Toussaints) e sentamos em uma das mesas da rua. Havia um vento gelado pra caramba, mas os nossos sanduíches de pão com geléia, ou queijo com salame estavam ótimos, principalmente naquele frio. Mais uma cidadezinha na beira do lago seguiu, com uma paisagem bonitinha. Essa eu realmente não lembro o nome, mas vou tentar colocar no nome das fotos ao menos...

Depois de sairmos dali, fomos praticamente direto para Panohalma, uma cidade mais ao norte, e que possui o mais antigo mosteiro dos beneditinos na Hungria (e provavelmente um dos mais antigos a estar de pé no mundo). Ele tem mais de 1000 anos, e data da criação do próprio estado Magyar (como os húngaros se chamam a si próprios). Infelizmente, chegamos um pouco tarde. Além de já estar quase escuro (era praticamente 4 e meia! Vejam só...), as visitas guiadas estavam terminadas. A visita a Panohalma foi mais arquitetada pelo Daniel, que participa de um movimento jovem em um mosteiro beneditino em São Paulo, cujos fundadores (do mosteiro, no caso) foram monges que fugiram durante guerras na Hungria e foram ao Brasil. Assim, ele conheceria algum monge de lá. Infelizmente de novo nenhum dos monges cujos nomes ele tinha pareciam estar lá para nos receber. Como já era de noite mesmo, e não deu muito certo, resolvemos procurar algum lugar para dormir na cidade e voltar lá na primeira hora da manhã. Acampar já estava fora de questão (era uma unanimidade, para ver o frio que a gente passou), e então achamos uma pensão ali perto. Acabamos ficando por lá mesmo, num quarto para 3, mais barato do que pagávamos em Budapeste, e com o café da manhã incluído. O senhor na recepção era muito engraçado, porque ele não falava nenhuma língua além do húngaro direito. A gente se entendeu em umas 5 línguas diferentes... alemão, inglês, espanhol, italiano, húngaro... foi uma bagunça, mas finalmente chegamos a um acordo finalmente. Até perguntamos do jantar... Eu e o Daniel fomos checar os preços, e eles estavam bem em conta. Descemos para jantar, levando a garrafa de vinho que tínhamos comprado no supermercado de Pécs, e jantamos muito bem. O prato, além de bonito, estava muito bom... Até sobremesa nós acabamos comendo, e nem gastamos tanto assim... O garçom nos atendeu super bem também. Assim eu vou ficar mal acostumado. Depois do vinho e do cansaço de tanto viajar, foi praticamente chegar no quarto e cair na cama, umas 9 da noite...

Quarta-feira, Novembro 14, 2001


Dia 31/10/2001

Acordamos cedo para tomar o café da manhã ilimitado... Aliás, cedo demais, porque chegamos antes de todo mundo. Foi só assim que a gente viu o estrago que causamos quando comemos em um café da manhã livre... Cada um pegou pelo menos umas 5 fatias de pão, eu acabei com metade de uma jarra de suco e eles com metade de outra, mais um monte de queijo... É uma festa. Mas eu tinha pago bem por isso...

Tínhamos mudado um pouco de planos dado esse nosso probleminha com o carro. Iríamos visitar mais alguma coisa de Budapeste, e na hora que abrisse a embaixada do Brasil poderíamos ligar para lá e perguntar qual era a história direitinho... Afinal, o cara da locadora contou uma história que estava dando problema com a carteira de motorista americana, e realmente, eles têm 50 carteiras diferentes, uma por estado, e os guardas com certeza criam problema... Mas com a do Brasil? Sendo que no Frommers estava dizendo que não precisaríamos de uma internacional?? Bem, era ouvir para crer.

Pegamos o metrô e fomos para uma famosa casa de banhos lá de Budapeste, o Géllert. É um grande hotel que tem também uma casa de banhos para homens e para mulheres. Assim, não há aquela história tipo no outro lugar de ter dia para homens e outro para mulheres... Não era tão mais caro em relação ao outro... Ainda pagamos para cada um ainda, além da entrada na piscina, uma massagem... Era para relaxar mesmo, e para esbanjar um pouco de dinheiro... (felizmente ainda estava sobrando nesse momento da viagem). Alugamos uma cabine para que nós três deixássemos nossas coisas, e colocamos uma roupa de banho e tal... A piscina era normal, com um monte de velhinhos nadando fazendo voltinhas bem devagar... Essa água não estava tão quente não, como dizia o guia... cadê as águas termais?? Segundo o cara que cuidava das cabines, era melhor a gente fazer a massagem antes e depois entrar na piscina, já que era mais demorado esperar pela massagem e tal... Fomos lá. Entramos em uma área que seria só para homens, e logo vimos por que: os que estavam recebendo massagem estavam todos pelados... Entramos por lá, e até alguns que faziam massagem estavam só com uma toalha enrolada. E ainda tinha uns que ficavam andando entre as piscinas termais (ah, finalmente) e as duchas ou pelados, ou só com uma tanguinha horrível que só tampava a parte da frente, mas que deixava todo o resto de fora... Era muito engraçada a situação... Mandaram a gente tomar uma ducha antes de fazer a massagem, e assim o fizemos. Sentamos em um banco lá esperando, e eu acabei ficando por último. Os outros dois foram chamados e entraram lá em uma sala... Eu fui chamado para o outro lado, e tive uma massagem diferente, em uma cama de plástico: o cara jogou água quente em mim, e ao invés de óleo ele usou sabão mesmo. Foi muito legal e tal. Depois de acabada a massagem, tomei outra ducha e entrei na piscina de 38 graus... A gente ficou lá relaxando (os outros chegaram depois)... Ah, que vida difícil de bolsista... Não agüentei muito mais tempo lá porque estava ficando quente... Aí fui para uma de 34 graus, que estava bem melhor e tal... Depois rolou uma ducha, e finalmente eu entrei na piscina só para constar... A água estava muito fria, em comparação com as outras duas piscinas... Mas tinha que dar uma voltinha pelo menos... A gente saiu, tomou um banho, estava tudo tranqüilo, mas eu queria pelo menos tirar uma foto lá de dentro. Não da parte que todo mundo estava pelado, claro, mas da piscina, que tinha umas colunas em volta muito legais ainda... Eu entrei com as três máquinas, com tocas de banho em volta dos meus dois pés (o cara me mandou fazer isso porque eu não podia entrar de tênis), e tirei três fotos iguais...

Saímos de lá e entramos no metrô. De lá ligamos para a embaixada. O Ivan falou com um baiano, chamado Jorge (a gente tinha que lembrar do nome dele depois para saber em quem jogar a culpa das informações que ele nos deu). Ele falou que realmente a nossa carteira não era válida, mas que os guardas geralmente pediam passaporte só, e que não teria problema... Que sempre poderíamos conversar com o guarda... Eu não caí muito nessa, mas sabe como é baiano... Tudo bem, o que eu posso fazer... Iríamos pegar o carro mesmo então... Partimos, claro, para a locadora, onde acertamos os papéis direitinho e pegamos um Corsa quatro portas. Fomos ao hotel, pegamos as tralhas, jogamos tudo dentro do carro e partimos em direção ao sul. A estrada era uma porcaria, com vários caminhões, um trânsito infernal. Várias vezes ficamos andando a 60 por hora no máximo... A galera só ia fazendo merda na hora de ultrapassar... Tava até meio perigoso, mas conseguimos chegar sãos e salvos em Pécs (pronúncia é algo como Pitch, mas não adianta tentar que nunca vais conseguir falar direito).

Pécs é uma cidade muito bonitinha, pequena, e com uma praça central como todas as outras. É até meio estranho saber que só nessa cidade existem três pontos que constam no patrimônio mundial da UNESCO. Bem, não visitamos realmente nenhum deles... Fomos à praça principal, onde tem a estátua de um general que foi um dos grandes personagens durante a guerra da Hungria contra os Turcos. Ali perto havia um escritório que dava informações aos turistas, e eles nos deram um mapa de Pécs com os pontos turísticos. Na praça mesmo havia uma mesquita que depois que os turcos foram expulsos foi transformada em igreja. Infelizmente, ela só ficava aberta duas horas por dia, e como a lei de Murphy diz, não tinham nada a ver com as horas que estaríamos na cidade. Segundo os guias, um bom museu seria o museu de porcelana... Fomos andando até lá.

O museu fica em uma casa que realmente não se dá nada por ela. Subindo a escada chegamos a uma pequena sala onde uma velhinha recebia o dinheiro... O legal é que todo o museu é comandado por velhinhas. Eu achei isso impressionante. Era irrisório o preço que pagamos pelo ingresso... Entramos no museu e começamos a olhar. Eu realmente não dava nada por aquele lugar, principalmente porque eu não tinha lido nada a respeito. Acho que aí moram os melhores momentos de uma viagem: a surpresa da descoberta. O museu era sobre as obras de uma família chamada Zsolnay (acho). Eles dominaram técnicas de fazer porcelana durante uns 50 anos, ganhando todos os prêmios internacionais que podiam... Logo na entrada já mostram que eles ganharam medalhas em quase todas as edições da Feira Mundial, que era sediada em vários lugares do mundo... E realmente, vendo a princípio, era muito legal o trabalho deles. Havia quadros feitos de porcelana, ou molduras... ou os dois... Só que eu ainda não tinha visto o resto. Havia várias salas, mais ou menos organizadas em ordem cronológica, onde tinha uma coisa mais linda que a outra. É até indescritível a qualidade das coisas que estavam expostas lá... Ora havia coisas que não dá para descobrir como um cara poderia fazer, ora eram vasos simples, mas que tinham um detalhamento no desenho ou nas cores que era de cair o queixo... Uma das coisas mais impressionantes são os vasos com uma cor e que o reflexo é de outra cor... Achava que isso só era feito em programa de computador... E era de verdade. Um rosinha que tinha o reflexo roxo era muito show. Só que não podíamos tirar fotos (e eu não achei cartão postal com ele depois...). Uma parte do museu era cuidada por uma mulher que ficou empolgada com a gente. Tão empolgada que resolveu querer explicar algumas coisas mas, tadinha, não sabia falar inglês também... Aí ela meio que explicava com gestos, com palavras em húngaro e em várias línguas (não me pergunte quais que na hora eu estava com meu cérebro em alto funcionamento para decodificar a fala dela). Foi até divertido. Ela mostrou vários detalhes da casa mesmo que eram feitos em porcelana... Havia a soleira da porta, o candelabro, várias coisas feitas em porcelana e que se misturavam com o ambiente e eu não teria reparado... Chegando ao final da exposição, ainda tinha alguns objetos pessoais da família, e alguns quadros mostrando a história da família e da fábrica de porcelana.

Depois disso ficamos andando pela cidade um pouco mais para visitar o que daria para entrar... Fomos até uma igreja onde tem uma cripta (que está na lista de patrimônios mundiais), mas acabamos não entrando... Na frente havia mais uma cripta (mesma coisa), e o terceiro até hoje a gente está procurando. Há também uma estátua de metal (que parecia o Romeu fazendo uma declaração para Julieta, mas não sei o que ele estava fazendo ali), e depois de um parque (que tinha um monte de namorados... que bonito...) tinha uma pequena torre medieval, onde tiramos umas fotos... Voltamos e fomos passeando por uma rua só de pedestres onde ficava o comércio, e paramos quando o Daniel gostou de umas roupas para mandar para a irmã dele... Depois disso só deu tempo para passar em um mercado antes que ele fechasse, comprar um monte de pão, salame, queijo e suco, e voltar para o carro. Decidimos então acampar só perto do lago Balaton, e então jantamos ali no carro mesmo... Foi mais uma farofa, dessa vez regada a suquinho, que foi bem melhor. Pelo menos estávamos estacionados em um lugar discreto, em uma ruazinha onde só passavam alguns pedestres, e não foi tão ruim assim... Com a barriga cheia, entramos no carro e partimos. O dia não estava tão legal... Era dia das bruxas, como todos sabem. Quase sofremos um acidente com um velhinho que virou de repente na estrada, mas nada de grave... A atmosfera tava meio pesada, talvez porque estivesse de noite e a gente estivesse andando por lugares não muito habitados... Mas finalmente chegamos em uma cidade onde achamos um camping. Só que esse estava fechado. Na verdade não bem fechado, porque eu entrei, usei o banheiro, vi que não tinha ninguém e voltei. Não gostei muito de ficar andando no escuro assim, mas não aconteceu nada mesmo. Voltamos pro carro e fomos andando direto para uma cidade do lado onde poderia ter outro camping... Chegamos lá alguns minutos antes de fechar o portão... O cara com um inglês sofrível (será que acharemos alguém que tenha um inglês bom?) falou que poderíamos acampar, ali do lado do portão, e pegou a carteira de estudante do Daniel como garantia... Como era do lado do portão a gente resolveu só armar uma barraca mesmo e colocar os três dentro... ficava meio apertado, mas era a vida... Até poderia esquentar um pouco mais, quem sabe... Foi uma dificuldade para colocar os ferrinhos, mas depois de acordar meio camping dando porrada neles com uma madeira a gente conseguiu um resultado mais ou menos satisfatório... Depois do banho quente, pulei pra dentro da barraca... Ficou realmente apertado com os 3...


Dia 30/10/2001

O dia começou cedo, para que pudéssemos aproveitar bem Budapeste. Acordamos no hotel Fortuna (era esse o nome do albergue, que na verdade era um hotel 3 estrelas barato...) e pegamos o metrô. Dessa vez a gente pagou. Encontramos durante o café duas brasileiras que moravam na Alemanha e que tinham ido passar alguns dias em Budapeste. Como tínhamos um programa todo corrido, e elas iriam ficar mais tempo por lá, decidimos não falar com elas no metrô (eu as vi, mas acho que elas não nos viram...). Fomos direto para o centro, de onde poderíamos atravessar a ponte e chegar onde seria o começo da subida do castelo de Buda. Não pegamos o metrô para o outro lado porque não conseguíamos entender como funcionava aquele ticket (se era só para um trem, podia trocar ou não... Era meio complicado. Eu só fui entender mais tarde, quando finalmente encontrei um quadro com explicações em inglês... húngaro não dá de jeito nenhum).

A cidade de Budapeste é na verdade a junção de três cidades, que foram crescendo em volta do rio Danúbio, e acabaram se encontrando. O nome (e a capital mesmo) é bem novo em relação aos mais de mil anos de história da Hungria. Chegamos aonde deveríamos pegar o elevadorzinho para chegar lá em cima, e para a nossa sorte ele estava sendo arrumado. Tive que subir tudo de novo a pé. Acho que isso está virando uma constante nessa viagem. Chegando lá em cima, depois de alguns minutos tirando foto da paisagem e da cidade vista de cima (que não estava tão bonita assim devido ao tempo meio nublado) entramos no museu que existe lá, com uma boa parte das obras de arte húngaras, chamado de Galeria Nacional. O museu não tinha muito auxílio de guias ou de visita guiada, e ainda por cima várias coisas só estavam escritas em húngaro. Mesmo assim há a coleção de restos de colunas e coisas do estilo de antigas construções do castelo de Buda, sem contar nos bilhões de quadros de artistas do país de várias épocas diferentes. Eu não sei porque, mas eu estava com as pernas um pouco cansadas, e não agüentava mais ver tanta coisa a partir de um certo momento... Acho que tinham bilhões de coisas para ver, e como eu não entendo nada (ignorante sem cultura) fiquei rodando por lá meio sem saber o que fazer. Acabei fazendo mesmo uma visita rápida, dando uns 2 segundos por quadro às vezes...

Depois de ver bilhões de coisas a gente saiu e foi andando em direção à Igreja de São Matias. Lá existem umas construções do lado que dão uma visão muito boa da cidade (que continuava envolta por uma névoa) chamada bastião. Foi chamada de Bastião dos Pescadores porque era uma associação de pescadores que ficou responsável por defender essa parte da muralha (e era até por isso que tinha uma boa vista da cidade... vejam só... nada é feito de graça). Do lado dela é que era a Igreja São Matias. Ele foi um grande rei da Hungria, e casou ali duas vezes. Acho que foi por isso que deram esse nome para a igreja. Do lado existia o hotel Hilton, que é apenas uma construção nova que utilizou algumas ruínas que existiam por ali na sua arquitetura...

Depois disso tudo, óbvio que eu estava com fome. Olhamos no guia do Frommers (depois de procurar pelos lados por algum restaurante) e vimos que havia um ali do nosso lado muito barato. Só que a gente não encontrava. Lendo bem no guia, deu para perceber que tínhamos que subir em uma escada escondida para poder chegar ao restaurante. Este era muito interessante: era tipo um bandejão, em que ninguém nos serve. Só que eu precisava saber quanto custava. Depois de tentar falar com alguém e ninguém saber inglês, a gente meio que perguntou com gestos qual era a comida. Uma mulher falou algo parecido com goulash, e foi a hora que meus olhos abriram, já que eu conhecia o prato. Era o mesmo que tinham comido em Praga, só que o goulash é um prato típico da Hungria. Na verdade são uns pedaços de carne com molho acompanhados por um tipo de macarrão diferente, mas não é muito distante do que eu já havia comido no Brasil não... O prato foi muito bem feito, com quilos e quilos de comida. Eu realmente estava precisando. Peguei até uma sobremesa, não muito preocupado com o preço... Mas a surpresa foi boa. O almoço foi bem barato e comi bastante. Até entraram mais turistas, que provavelmente também leram no guia sobre esse restaurante, mas acho que eles não gostaram muito da comida e deixaram coisas no prato... O legal é que, quando não se sabe inglês, descobri que a melhor comunicação é tentando fazer gestos e sorrindo. Todo mundo te entende e ainda fica feliz de tentar te ajudar. A mulher que eu fui pedir água foi bem assim: eu cheguei sorrindo pedindo água apontando para a garrafa, e ela foi toda feliz lá buscar... Eu até falei obrigado em português mesmo porque ninguém ia entender de qualquer maneira o que eu tava falando, mesmo em inglês... Como eu já tinha lido em algum lugar, quanto menos o pessoal do restaurante falar inglês, mais barato é a comida... Ali a comida deveria ser de graça...

Saindo do restaurante, saímos andando para chegar ao outro lado da ponte, passando por umas praças antigas que ficavam ali por perto. Tinha começado a gostar da cidade já... Passamos por uma parte mais moderna, e até passamos por uma casa de banho (tradicional de lá também), mas era o dia das mulheres, e a gente só poderia entrar no dia seguinte. Pelo menos deu para dar uma olhada nos preços e talvez a gente poderia voltar quando passasse por Budapeste de novo... Decidimos andar um pouco mais e dar uma passada no Parlamento, que é uma das construções mais vistas lá do castelo de Buda. Infelizmente chegamos lá um pouco tarde e não teria mais visitas ao interior do Parlamento, onde fica a velha coroa dos reis da Hungria (é a coroa mais antiga da Europa). Ficamos só na frente tirando fotos, porque nem chegar perto poderíamos devido a uma corrente que isolava todo o prédio...

Estávamos com um pouco de pressa porque ainda tínhamos que ir pegar o carro alugado na locadora (que não sabíamos que hora fechava, e nem se iam reclamar por termos deixado para pegar o carro à tarde e tínhamos reservado para a manhã) e ainda passar no albergue para pegar nossas coisas que tinham sido abandonadas enquanto passeávamos pela cidade. Mesmo assim ainda fomos andando até a Ópera Nacional para ver se haveria algum concerto em alguma das noites que estaríamos em Budapeste. Foi uma andada boa, no frio, e quase que desisti de ir lá de tanto que demoramos chegar... Os ingressos para o espetáculo da noite já estavam esgotados, mas ainda havia para o dia 2 de novembro, a outra noite que estaríamos em Budapeste. Ainda por cima era o Requiem de Verdi, justamente por causa do feriado de Todos os Santos (aliás, caía exatamente no dia de finados que a gente comemora no Brasil). Ficamos até animados com a possibilidade de assist-lo, e fomos perguntar para a mulher se ainda tinha ingressos. Tinha. Só que eram do segundo tipo mais caro, ou então um ingresso furreca que ficava atrás de tudo, lá em cima. Dúvida... Eu estava decidido que deveríamos comprar o mais caro mesmo, e dane-se. Seria para fechar a viagem com chave de ouro. Duvida... Ah, compramos logo (no meu cartão, claro) e escolhemos os melhores dos que a gente tinha... Ficamos na décima fileira. Acho que não ficamos tão mal tendo pago quase 180 francos... É até barato se for comparar com o preço normal de um concerto desses...

Nessa hora foi uma correria. A gente foi pegar o metrô e foi pensando em qual estação parar, para saber qual a altura da locadora. O número da locadora era 62. A rua era gigantesca, e até passava perto do nosso albergue. Tanto que de manhã tínhamos visto os números ali perto, e estavam entre 101 e 95 (ou algo parecido). Então, obviamente, tivemos a idéia: passaremos umas duas estações e vemos se o número 62 está por lá. Claro que não estava. Os números estavam crescendo na direção contrária ao que tínhamos visto. Depois de alguns minutos de indecisão porque não estávamos entendendo nada, o Daniel decidiu ir para o albergue pegar nossas coisas e eu e o Ivan ficamos responsáveis de pegar o carro. Bom. Voltamos para o metrô (ilegalmente) e fomos parando de estação em estação para saber onde diabos estava o número 62. O legal da Hungria, que também era o mesmo na Áustria, é que o número não é por metragem que nem no ocidente. Eles colocam um número em um prédio gigantesco, ou mesmo em um conjunto de prédios, e a coisa não anda. Por isso, a gente andava uma estação de metrô, que era coisa pra caramba, e só tinha passado 20 números... Quando descemos do lado do albergue, eu me toquei o que tínhamos errado: de manhã tínhamos visto os números ímpares, e os pares andam de maneira diferente (bem diferente aliás). Passamos o albergue e fomos andando mais um pouco. Teríamos que pegar mais uma estação de metrô. Droga. Tava frio. E eu estava com o nariz escorrendo. Diabos. Já estava começando a ficar puto com a cidade. Acabei ficando puto no momento que eu saí na outra estação de metrô e a gente só tinha andado 10 números. Como diabos foi feita essa numeração. Decidi sair andando assim mesmo... Até que enfim, depois de muito andar, chegamos ao 62. Europcar... ahhh, finalmente. Demos os papéis que seriam necessários, e ele ainda pediu a carteira de motorista e o passaporte do Ivan, que era quem tinha pagado o carro com seu cartão. Tudo estava certo, até o cara olhar a carteira de motorista e pedir a carteira internacional. Não temos, claro. Ele disse que a carteira brasileira não era válida na Hungria, e que poderíamos ter problemas com os guardas húngaros, que iriam nos multar se passássemos por algum controle. Bom... o Daniel não estava por ali, e não sabíamos o que fazer. Eu não iria tomar uma decisão que poderia me custar muito caro sem a aprovação de todos os 3... Resolvemos voltar para casa com uma mão na frente e outra atrás mesmo, dormir bem, e pensar no caso. Além de tudo isso a gente foi andando reclamando da vida e passou o metrô... Acabou andando até o albergue mesmo... Foi até ridícula essa parte...

Chegando no albergue tava lá o Daniel esperando pela gente uma boa hora... Ele viu que a gente tinha chegado, e a gente deu a boa notícia a ele. Claro que ele falou que era para ter pegado o carro mesmo assim e saído... Mas não dava mais tempo na hora, e acabamos tendo que ficar no hotel mais um dia... Foi isso que destruiu um pouco nosso orçamento para a Hungria, mas nem tanto assim... Pelo menos dormimos bem mais uma noite... E ainda poderíamos tomar um bom café da manhã...

Dia 29/10/2001

Acho que não fui feito para acampar no frio. Eu acordei de novo com meu pé gelado (apesar das duas meias que eu estava usando) e não consegui dormir de novo. Bom, quem manda não comprar um saco de dormir quente pra caramba? Teria que ter comprado um daqueles que a galera usa quando vai escalar o Everest, prontos para 20 graus... O meu é para 10-15 graus, e acho que estava um pouco mais frio que isso... Sem contar que eu não consigo acreditar muito no que dizem os fabricantes dessas coisas. Tirando a nossa barraca, que é para duas pessoas e dá bem tranqüilo duas com as bagagens, todas as outras diziam que cabiam 3 pessoas nela, mas davam 53 centímetros de largura para cada pessoa... Isso só dá para amontoar as três pessoas... Bem, voltando à história. Eu fiquei enrolando até a hora de levantar... Isso sem contar que havia um problema bem grande: estava chovendo. Ou seja, eu não poderia fazer outra coisa a não ser ficar dentro da barraca, porque senão iria ficar com frio e molhado ao mesmo tempo. Tocou o despertador às 7 horas, como combinado. A gente teve que sair mesmo assim, com a chuva tendo parado um pouco, porque senão arriscaríamos a ficar ali muito tempo e a ter que correr para Viena depois. Como não queríamos fazer isso, pegamos as barracas (molhadas) e levamo-las para um lugar um pouco mais seco do lado do banheiro para tentar secá-las antes de guardá-las. Foi uma hora para tentar secar alguma coisa, e até que conseguimos, às custas de muito papel higiênico que roubamos do banheiro do camping... Ainda bem que a mulher da limpeza, que nos viu pegando os rolos, não reclamou... Bem, a gente tava pagando para usar tudo aquilo (sem contar que eu fiquei secando minha toalha no secador de cabelos na noite anterior, mas...). Depois de guardar tudo aquilo já eram 9 horas... Só aí que o Daniel notou que ele não tinha arrumado o celular dele para o horário normal (o horário de verão tinha acabado) e ainda eram 8 horas... Isso nos confortou um pouco, e pudemos tomar café mais tranqüilos. Passeamos um pouco dentro do camping, e fomos lá depois pagar finalmente e pegar nossas carteirinhas. Foi tudo tranqüilo, o que a mulher tinha nos avisado no dia anterior (ainda bem que eles não perceberam que a gente montou duas barracas, e não só uma). Saímos correndo para a Glossglockner.

Depois de pagar o pedágio (quase 100 francos também, mas dividido por três...) e tirar umas fotos logo no começo, subimos e fomos parando nos pontos marcados como as melhores vistas... De lá a gente podia ver várias das montanhas mais altas, mas a que dá o nome à estrada ainda não estava lá (acho). Havia uns mapas nesses pontos mostrando onde havia museus sobre a região e sobre a estrada, e uma fotos das montanhas mostrando qual era qual e a altura de cada uma delas. Várias paisagens muito lindas. A gente estava meio que correndo contra o tempo, mas foi interessante... Quando chegamos a um certo ponto, começamos a passar no meio da neve. Claro que paramos para brincar um pouco com bolas de neve e tirar fotos. Adorei me jogar no meio da neve, me molhar todo (dãã, claro, é água!) e ficar com frio (dãã, claro, é gelo!). Mas valeu a pena, e espero ainda ter uma oportunidade de esquiar. Fomos até o fim da estrada, para ver o mais de perto possível a Glossglockner, e depois voltamos pela mesma estrada para ir ao ponto mais alto dela, de onde poderíamos ver uma grande cadeia de montanhas, todas cheias de gelo... É impressionante a visão que se tem de lá... Acho que é por isso que pessoas se ferram escalando montanhas... Para se ter esse tipo de visão. Ainda bem que para pessoas preguiçosas como eu existem estradas como essa.

Depois de ir e voltar pela estrada, continuamos viagem para Viena. Nada de mais aconteceu, além de eu levar outra lavada em alemão, dessa vez no mercado quando a mulher tentava dizer que as garrafinhas de água só eram vendidas em pacotes de 6 e eu tinha tirado uma do pacote (ele estava aberto, mas eu sabia que só era vendido o fechado...). Ela me vendeu do mesmo jeito, e finalmente eu tinha uma garrafinha de água só minha (o burro aqui estava viajando até agora sem água própria...). O mais legal é que sempre que eu pedi água na Áustria eles me deram uma garrafa de água com gás. Eu detesto água com gás. Mas com sede tudo vale. O resto da viagem (com comida agora, finalmente) foi bem tranqüilo. Chegamos em Viena, o Daniel deixou a gente com as bagagens na estação de ônibus, foi devolver o carro e voltou. Pegamos o ônibus para Budapeste... Depois de mais um controle de fronteira (que saco esses problemas de fronteira), chegamos finalmente à Hungria.

Em Budapeste, sem dinheiro, não tínhamos como comprar o ticket de metrô... Resolvemos ir sem pagar mesmo, já que não tínhamos muita escolha (torcendo para que logo 11 horas da noite não fosse ter um controlador...). Encontramos um cara que falava um inglês meio sofrível na estação, mas que nos ajudou muito a encontrar o hotel Fortuna, que foi o albergue que a gente tinha reservado para ficar. Estava um frio de matar qualquer um... Mas finalmente chegamos no quarto, descobrimos que teríamos que pagar 10800 florins, mas deixamos tudo isso para o dia seguinte... Fomos aproveitar o quarto só para três pessoas que a gente tinha (finalmente! Uma boa noite de sono!)... Dormi muito bem essa noite, apesar de ser pouco tempo...

Dia 28/10/2001

Hmmm... talvez acampar nessa época do ano não tenha sido uma das melhores idéias do mundo. Mesmo pagando menos eu não consegui dormir muito não. Eu estava com uma meia de lã e com um moleton, e mesmo assim eu fiquei com muito frio. Acordei uma certa hora da noite (com o Ivan se mexendo e com uns bêbados de algum outro trailer gritando) e não consegui mais dormir porque estava muito frio... Meu pé estava congelando. Quando tocou o despertador eu já estava há muito acordado, e saí rapidinho pra ver se eu colocava uma roupa mais quente... Dentro do carro estava muito melhor. A barraca ficou molhada só com a transpiração da gente... E estava realmente frio de manhã... Tomamos café (se é que umas duas fatias de pão são consideradas café da manhã...) e saímos do camping para ir ao castelo de Salzburg.

O castelo de Salzburg é uma pequena aldeia fortificada (como Carcassone, mas menor) e fica no alto de um morro que tem na cidade. Claro que a gente chega lá e o teleférico ainda estava fechado... Para ganhar tempo a gente resolve subir tudo a pé (como tinha muitos que faziam), mas foi mortal... Chegando lá em cima na porta (ainda fechada porque estava cedo) eu já estava morto. Testei a porta e ela abriu, mas levei uma lavada da mulher em alemão e depois em inglês dizendo que ainda não era hora (faltava tipo uns 5 minutos para abrir...). Esperei os malditos 5 minutos e compramos o ingresso, com direito a entrar no castelo e ver os cômodos. Só que a parte interior ainda não estava aberta, e então aproveitamos para visitar a parte exterior de uma vez. Para chegar ao pátio do castelo, mais subida... Acho que antigamente todo mundo era magro e com as pernas sinistras, porque nunca vi ser tão difícil de chegar em algum lugar... Não havia nada de mais na parte exterior... Fui a um museu que tinha lá dentro sobre a história de Salzburg e do castelo em si, mostrando vários aspectos da vida do castelo e da vida na cidade em si quando o castelo era habitado pelos bispos que mandavam na região. Tinha as armas da época, instrumentos de tortura, roupas... Muito interessante. Tinha até um quadro fazendo um paralelo entre a história do mundo, da Áustria e do castelo... Depois disso entramos nos cômodos do castelo, onde recebemos um audioguide individual, onde em cada sala digita-se um código e ouve-se a explicação. Impressionantemente, eu achava mais fácil de entender as explicações em francês do que em inglês com sotaque britânico... Tou começando a ficar com medo de perder o inglês de vez. Todas as explicações eram bem detalhadas (ou seja, enormes), e a visita toda durou cerca de 45 minutos. A primeira sala era uma que contava a história do castelo, com várias maquetes de como ele era em cada época, e com pinturas dos bispos que ficaram ali... Depois houve outras salas normais de castelo (como a sala de tortura, que nunca foi usada para tortura, mas só como prisão uma certa época), quartos... Esse tipo de coisa. Em uma certa parte subimos em uma torre, e lá de cima o guia explicava várias coisas de Salzburg e de seus monumentos, já que dava para ver muita coisa. Um dos lados do castelo é uma região bucólica, cheia de gramados gigantescos... Foi ali que foram gravadas várias cenas do A noviça rebelde. Muito interessante. Há até passeios, para quem pagar é claro, pelos lugares das gravações. Mas não estava muito interessado nisso não. Acabamos a visita e fomos correndo para o carro, pois estávamos um pouco atrasados...

A próxima coisa que estava nos planos seria visitar uma caverna de gelo, que é a maior caverna desse tipo no mundo. São 42 quilômetros de túneis, tudo cheio do mais puro gelo. A neve do inverno derrete na primavera, desce pelo solo para a caverna e congela. Esse gelo fica o ano todo lá... É impressionante. Mas antes disso a gente tem que chegar lá. A estrada era tranqüila, até que tivemos que começar a subir. Era uma boa idéia ir com o carro até o estacionamento mais em cima possível, já que a caverna era lá no topo, e ninguém estava a fim de andar que nem um condenado. Não teve jeito. Já estávamos tão alto que tínhamos passado um morro do lado que tinha outro castelo, e depois do estacionamento ainda tínhamos que subir mais ainda... Foi uma boa caminhada, na qual eu quase morri sufocado porque fazer exercício em um frio daqueles não é para qualquer um, ainda mais para o sedentário aqui. Chegando no lugar onde pegaríamos o teleférico, descobrimos que era um pouco mais caro do que imaginávamos (cerca de 100 francos), mas já que tínhamos ido ali... Só que foi mais de meia hora de espera pelo teleférico (ficamos na frente da fila... malandros... enquanto isso o resto do pessoal que já estava lá, mas que ficou tomando sua cervejinha, ficou para trás). Só uns 30 puderam subir, porque acho que é limitado o número de pessoas por grupo... Depois de chegar na estação lá em cima, mais uma surpresa: mais uma caminhada gigante, com subida, para chegar na boca da caverna. Essas viagens ainda vão me matar. Ainda bem que eu já estava melhor... Subimos rápido achando que isso iria fazer alguma diferença, mas tivemos que esperar por todo mundo... Outra grande surpresa é que eles não falavam inglês, só alemão. Recebi um papel em inglês com o que o cara falaria em alemão, e fomos com isso mesmo durante o passeio. Dentro da caverna é uma temperatura constante: 0 graus. Eu, dentro da geladeira, até que não senti tão frio... Também, eu estava com duas calças, blusa de lã, casaco, luva, toca... Estava bem preparado. Não havia iluminação dentro da caverna. Apenas umas lanternas a querosene que tinham nos emprestado e uma iluminação de magnésio que o guia levava. Logo na entrada a minha apagou, porque o vento chegava a uns 100 km/h (segundo o guia). O legal é que essas lanternas a querosene são preparadas para uma acender a outra: basta dar um encontrão entre as duas... Eles devem ter pensado nessas horas. São 700 degraus para subir (um pouco mais até), e depois temos que descer tudo de novo... O passeio é muito legal, com várias esculturas feitas pelo gelo quando ele desce (na verdade é a água que desce, mas dá pra entender) e vai formando... Tinha um elefante (que agora está sem a tromba) e várias estalactites/estalagmites. Há até um túmulo lá dentro de um cara que explorou muito a caverna, e que, quando morreu na guerra, teve suas cinzas guardadas em um túmulo na maior câmara da caverna... As construções de gelo eram impressionantes... Descemos tudo de novo (nossa, quanta caminhada...) e corremos para o carro para tentar pegar a estrada...

A estrada da qual falo se chama Glossglockner (na verdade esses dois s são um beta, mas eu me recuso a escrever beta no meu texto). É uma estrada que sobe pra caramba e passa pelo meio das montanhas mais altas da Áustria. Entenda-se por isso que as vistas são animais, com várias montanhas com gelo eterno ao fundo... Entenda-se também que é tudo bem frio, mas isso não quer dizer muita coisa, já que estávamos passando frio em todo lugar mesmo. Só que teve um problema. Chegamos na estrada em um momento onde a luz estava indo embora, e não adiantaria muita coisa passar por ela... Depois de uma boa discussão porque a estrada estava no programa para ser hoje e não amanhã, e que teríamos que escolher a estrada ou Insbruck, ou mesmo tentar as duas coisas e arriscar perder o ônibus para Budapeste, decidimos acampar ali por perto e pegar a estrada de manhã bem cedo... Insbruck tinha sido cortado do programa, já que seria muito corrido tentar fazer as duas coisas... Sempre se pode voltar depois para visitar uma cidade, mas para passar por essa estrada é necessário um carro (claro).

Depois de procurar por campings abertos (sempre tem os fechados fora de temporada) encontramos o melhor albergue de todos os tempos, a meu ver. Lá no camping tinha tudo. O banheiro parecia de hotel 5 estrelas (com direito a secador de cabelo no banheiro e tudo), sem contar as coisas tipo sala de ginástica, sauna, massagem, laguinho particular, mercado, casa de câmbio, quadras de esporte, piscina... tinha de tudo lá, só que a gente não poderia usufruir muito porque teríamos que sair o mais cedo possível e àquela hora da noite (6 da tarde...) já estava tudo fechado. Até a recepção. Mas uma mulher muito simpática do restaurante nos acolheu, pegou nossas carteiras de estudante para garantir que pagaríamos, e nos deu um pequeno mapa do camping dizendo para ficarmos do lado do banheiro novo. Era esse banheiro que era muito bom... Só que acampar é sempre a mesma coisa: frio. Montamos a barraca, tomamos um bom banho, e saímos de novo para tentar comer alguma coisa na cidade. Fomos ao McDonalds mesmo, em outra cidade, porque é uma coisa fácil, não muito cara (se bem que na Áustria os preços são bem parecidos com os da França) e sempre com o gosto que conhecemos... Pedi uma promoção mesmo, com ketchup (pago...). Não é propriamente uma refeição, mas melhor que nada. Depois disso, só o tempo de chegar na barraca e cair no sono.


Dia 27/10/2001

Realmente acordamos cedo, mas não saímos tão cedo quanto imaginávamos. A Júlia nos arrumou um café da manhã sinistro, cheio de coisas, mas a gente demorou tanto tempo comendo... Ainda por cima tínhamos que achar onde iríamos pegar o carro que tínhamos alugado. Fomos sem as coisas para depois voltar e catar tudo (mais fácil). Só que como a gente não sabia a altura do número, acabamos descendo pontos antes do metrô, e com medo de passar fomos a pé mesmo... Demoramos bastante, e estava bastante frio... Mas finalmente encontramos, e ganhamos um Fiat Punto. Voltamos para a casa da Júlia e pegamos as coisas, nos despedindo... Não iríamos encontrá-la novamente no próximo dia que iríamos passar em Viena.

Pegamos a estrada para Salzburg, passando por um laguinho (várias fotos de paisagem muito bonitas!), chegando lá um pouco tarde já... Depois de um trabalhão achando um lugar para estacionar corretamente (não estávamos querendo levar uma multa de bobeira na Áustria, apesar de na saída de Viena eu ter notado uns flashs...) só deu tempo de visitar a casa onde a família do Mozart morava, e onde ele nasceu... Há um pequeno museu com as coisas que restaram da família lá, entre cartas entre membros da família e instrumentos que o jovem Mozart usou... Não podíamos tirar fotos (mas tirei assim mesmo quando consegui, sem flash...). Havia também uma outra parte que falava de Salzburg na época de Mozart, quem mandava por lá... Essas pequenas coisas...

Perdemos a chance de entrar em uma galeria de arte por causa da hora também... Já eram 5 horas quando a gente resolveu ficar só andando por Salzburg mesmo. Tiramos foto na praça principal e fomos às igrejas, especialmente à catedral de lá. Na entrada há três datas, datas que a catedral foi (re)aberta. Durante a segunda guerra os aliados destruíram uma boa parte da catedral, e ela teve que ser toda reconstruída... O resultado é impressionante... O teto parece que foi feito para dar um efeito de profundidade, e ele está todo pintado de branco, com os contornos em preto (que não é tinta preta, mas são partes que não foram pintadas), criando um efeito impressionante... Infelizmente não fui capaz de colocar isso em uma foto... Depois da igreja ficamos passeando um pouco pela praça (tirando até uma foto do castelo que iríamos visitar no dia seguinte), mas resolvemos sair logo para tentar encontrar um camping. É, um camping. Eu tinha comprado uma barraca e tinha levado para que pudéssemos gastar um pouco menos com estadia ficando em campings durante a viagem quando pudéssemos, especialmente nas noites em que estaríamos com o carro. Claro que daríamos prioridade a lugares próprios para isso, com banheiros e chuveiros com água quente, mas caso não encontrássemos poderíamos dormir em qualquer lugar. Como a alta temporada já acabou, alguns campings estão fechados, como foi por exemplo o caso do primeiro que a gente encontrou. Tava tudo lá abandonado, a não ser por uns trailers que estavam por lá, mas não daria para ficar assim de primeira num lugar desses. Tentamos o próximo, e esse estava aberto. A gente paga cerca de metade do que pagaria num albergue, e dependendo vale a pena. Montamos pela primeira vez as duas barracas, coloquei dentro de uma delas meu colchão inflável e meu saco de dormir. Como ainda estava cedo e estávamos com fome, ainda fomos dar um passeio em Salzburg para comer alguma coisa e tirar fotos à noite. Com a minha câmera realmente não dá pra tirar fotos, mas com a do Ivan (usando tripé) fica legal... Ficamos uns minutos na praça tirando fotos do castelo, e depois fomos procurar algo pra comer. Encontramos um kebab que estava com um preço convidativo, e foi o jantar do dia... Voltamos para o camping pra tomar um banho e cair no sono (bem agasalhado, claro).

Dia 26/10/2001

Acordar cedo, depois de ter dormido quase nada... Não é muito interessante, principalmente quando se acorda 5 da manhã, tendo que sair o mais rápido possível, se arrumar, só que em um albergue com mais 3 pessoas totalmente estranhas no seu quarto dormindo. A australiana que a gente acordou, coitada, de novo teve seus problemas com a gente. Os outros dois, que não cheguei a conhecer, devem ter acordado também, sendo que um deles estava em um colchão na frente dos armários de metal onde tínhamos um monte de coisa. Acho que esse foi o que mais sofreu... Fizemos muito barulho, mas eu tentei sair o mais rápido possível... Os outros fizeram mais barulho ainda... Bem, não podíamos fazer nada.

Saímos correndo para chegar na estação de trem principal da cidade (era o único trecho que faríamos de trem e não de ônibus da Eurolines só para sair antes de Praga... só teria ônibus no dia seguinte) mas, quando chegamos lá, descobrimos que a nossa amiga SNCF tinha errado o nome da estação de partida, e nosso trem partiria de outro lugar... Tivemos que ficar correndo pelo metrô que nem uns malucos, com aquele peso todo, para poder chegar na estação certa a tempo. Além disso, teríamos que gastar o pouco dinheiro que nos restava, para que não ficássemos com aquela coisa inútil (pra que eu quero dinheiro da República Tcheca!). Compramos nosso café da manhã e uns refrigerantes. Acho que uns 2 minutos depois que eu sentei o trem começou a andar...

O trem era uma porcaria para dormir... Além disso, autoridades tanto da República Tcheca, para carimbar meu passaporte na saída, quanto da Áustria, para carimbar a entrada, estavam lá para me importunar. É a vida. Enquanto eu queria dormir, os outros tentavam estudar sobre Viena e a Áustria.

Chegamos a Viena por volta de umas 11 horas. Eu tive que comprar um cartão telefônico para ligar para minha amiga, Júlia, que mora em Viena e era na casa dela que iríamos passar a noite. Ela foi nos buscar lá na estação porque estávamos um pouco perdidos (apesar de ter bastante dinheiro! Nossa conta bancária vai explodir...). Depois de comer alguma coisa, fomos lá para o centro, onde ficava a casa dela. Passamos antes pela Ópera, muito bonita, e na hora uma mulher com ingressos para um concerto de Mozart nos abordou... Fiquei muito interessado no concerto, mas não era exatamente na Ópera... Era em uma casa de concertos menor que ficava ali perto... Mas mesmo assim, ficamos de voltar para ver os ingressos, já que ela disse que eram com desconto porque éramos estudantes...

Depois de deixar aquele peso todo em lugar seguro, fomos para a catedral, que fica exatamente no meio do centro da cidade (o que quer dizer que ela é o centro, praticamente). Muito bonita, com uns desenhos no teto feitos com ladrilhos... Por dentro ela era muito bonita também, mas muito cheia de gente. Era feriado nacional... Tinha outra torre na igreja, que acabamos pagando para subir de novo, mas realmente não era muita coisa. Além de ter um monte de andaime na frente, ainda não eram janelas que a gente podia ver muita coisa... Era tudo fechado... Mais uma pegadinha (e meio cara...).

Depois disso fomos andando para o Hofburn, que era o castelo de inverno dos Hapsburgs, a família que reinou a Áustria até a Primeira Guerra Mundial. Na frente encontramos outra mulher falando sobre o concerto do Mozart, mas essa nos explicou direito. A outra que estava querendo nos vender o ingresso de estudante estava mentindo... Não havia ingresso de estudante, só ingressos que ficavam muito atrás, e que eram baratos porque não dava para ver muita coisa. Só que a gente resolveu comprar do mesmo jeito porque primeiro queríamos ver o concerto, e segundo porque ela nos disse que daria para ouvir muito bem de qualquer maneira, já que o lugar tinha acústica boa... Entramos no castelo ali para vê-lo por fora, e ele tava um pouco cheio demais... Um pequeno pátio tinha a estátua da Maria Teresa, uma das rainhas mais importantes.

Quando eu falo que era um feriado nacional, eu não quis dizer um feriado qualquer... Era o dia nacional, como se fosse o nosso 7 de setembro. O exército estava lá no pátio gigante do castelo com vários veículos de guerra... As criancinhas ficavam entrando nos carros para ver como eles funcionavam, e enquanto isso estava no palquinho no meio tendo um show cover dos Beatles (muito bom, mas... ?). Tava praticamente impossível de visitar as coisas normalmente por ali... Mesmo assim, depois de ver um pouco o show, continuamos andando até onde existe o Museu Nacional de Belas Artes e o Museu de História Natural, dois prédios gigantescos simétricos, voltados para uma praça onde tinha uma outra estátua da Maria Teresa (e a praça tinha o nome dela também). Quando voltamos para tentar entrar no castelo, descobrimos que ele tinha fechado (4 e meia fecha a bilheteria). Continuamos a andar, para visitar outras coisas no centro, e passamos por outras construções interessantes... Estava ficando meio tarde, e decidimos voltar para casa. Compramos comida para fazer um jantar interessante antes de ir para o concerto. Eu não queria chegar atrasado...

Depois de se arrumar bonitinho para ir ao concerto, e comer bastante macarrão, saímos um pouco atrasados. Mesmo indo correndo, nos perdemos um pouco na hora de achar o lugar, e perdemos a primeira música. Fiquei um pouco puto, mas tenho que admitir que o resto valeu a pena... Foi um dos pontos altos da viagem. Eu não sabia que iria gostar tanto de ouvir Mozart assim, ao vivo... Músicas que eu sempre escuto em CD tocadas assim são muito melhores... Os cantores ao vivo... Muito legal, eu adorei. Mas nossos lugares não eram os melhores do mundo. Só que, no intervalo, fizemos o que muitos fizeram também: saímos do nosso lugar ruim lá em cima e descemos para pegar um dos lugares que custavam 4 vezes o preço do nosso ingresso... A parte de baixo ficou cheia de repente para a segunda parte do concerto, não sei porque... A segunda parte foi mais legal ainda, com destaque para a famosa Eine Kleine Nachtmusik... Ainda tivemos duas famosas de Strauss, com direito ao regente reger nossas palmas... Muito maneiro. Passamos no caminho para casa por um barzinho para ficar conversando (e comer uns doces)... E capotamos na cama para poder acordar cedo no dia seguinte.

Dia 25/10/2001

Acordamos bem cedo para pegar o café e aproveitar bem o dia. De novo acordamos todo mundo (dessa vez o senhor estava lá também), mas pelo menos o senhor foi tomar café logo, enquanto que a australiana ficou dormindo. Não entendo como alguém pode ir para Praga e ficar dormindo até tarde... Eu gostaria muito de ficar aproveitando todos os dias ao máximo... O café não era uma coisa maravilhosa mas alimentou bastante até o almoço pelo menos.

Hoje era o dia de atravessar a ponte (de novo) e visitar o outro lado da cidade, juntamente com o castelo. Antes disso passamos pela pracinha do centro de novo, e tiramos várias fotos com o tripé (o quarto elemento da nossa viagem, que tirava foto de nós 3), sendo que fizemos um 360 graus de todas as construções com arquitetura diferente. Logo depois vimos finalmente o relógio funcionando. Enquanto esperávamos a hora (dessa vez ficamos mais de 15 minutos lá, porque eu não queria perder de novo o horário) ficamos conversando em português. Umas garotinhas, que deviam ter seus 12 a 14 anos ficavam olhando pra gente não entendendo nada e rindo. Aproveitei para ficar sacaneando elas, falando em inglês e elas não entendendo nada (acho que só os adultos de Praga sabem falar inglês... e muito bem, fiquei até surpreso com a quantidade de gente que eu conseguia me comunicar). Uma caveirinha começa a se mexer e a bater o sino, enquanto as outras figuras se mexem um pouco (nada mal para um relógio tão antigo!!) e enquanto isso duas janelinhas se abrem e ficam passando imagens de santos por elas... Bem interessante. Depois disso resolvemos subir na torre onde fica o relógio, para ter uma vista de cima da cidade (segundo o guia, era interessante). Pagamos e fomos de elevador até o topo. Realmente, a vista era bem interessante, com toda a praça de cima, as torres, as casinhas, o castelo ao longe...

Finalmente chegamos à ponte Charles IV (com direito a uma estátua do rei no começo da ponte), com suas várias estátuas de santos dos dois lados (que são réplicas, já que a ponte foi destruída muitas vezes... Algumas originais ainda existem, mas eles não deixaram na ponte e colocaram cópias). No meio da ponte há vários artistas que ficam pintando aquarelas de paisagens de praga, alguns que fazem caricaturas das pessoas... Tudo como uma verdadeira cidade turística. No meio do caminho encontramos duas brasileiras que estão morando em Londres (é, a gente precisa aprender a falar mais baixo...), e enquanto estávamos conversando com elas chega mais um casal do Rio Grande do Sul. Brasileiro continuando sendo uma praga se espalhando pelo mundo. Depois de alguns minutos de atraso, continuamos a andar pela ponte para chegar do lado onde iríamos visitar. Antes de realmente acabar a ponte, ainda subimos em outra torre que ficava no final da ponte, para ver de novo a paisagem. Dessa vez não tinha elevador (escada que não acaba mais) mas tinha uma pequena exposição sobre a história da ponte (suas várias destruições, construções...) e algumas coisas que restaram das antigas pontes. A vista já não era tão interessante, mas vendo o pessoal passando pela ponte de cima foi bem legal.

O dia tinha sido reservado para seguir o walking tour do Frommers por aquela parte da cidade. Andamos por ali, com vários prédios que o guia destacava arquitetura ou importância histórica, mas não tinha nada demais. Depois de a gente se perder um pouco para continuar o caminho descrito no guia, encontramos uma pequena igreja. Entramos nela e começamos a andar. Eu estava meio cansado (continuava um pouco doente, mas estava melhorando) e sentei logo no último banco. Enquanto isso o Ivan e o Daniel continuaram a observar a igreja e eles pararam em um dos pequenos altares laterais. Eu fui lá olhar e, para minha surpresa, quem eu encontro: o famoso Menino Jesus de Praga. Eu lá estava lembrando que eu estava em Praga e ligando com esse fato! E ninguém tinha me avisado nada, lógico. Foi legal a surpresa, e ficar tão perto de um alvo de orações do mundo inteiro... Continuamos para ver um museu que ficava em cima, com várias roupinhas do Menino Jesus (parecia até uma barbie, de tanta roupinha e apetrechos, com fotos de freiras vestindo a pequena estátua...). Depois passamos pela sacristia para sair, e quando estávamos indo para a porta um padre nos parou (porque éramos 3 só...). Ele perguntou de onde éramos em inglês, e quando a gente falou que era do Brasil ele abriu o sorriso e falou um português meio ruinzinho. Ele é um padre que vai para umas missões na África e que conhece vários padres que estavam em missões no Brasil também... Ficamos um pouco lá falando e recebemos vários santinhos do Menino Jesus, com a oração atrás escrita em português... Enquanto isso chega mais um cara de Minas, médico, devoto do Menino Jesus, que queria se comungar com o padre e deu um bolinho de nota de 100 dólares pro padre para ajudar a igreja (como se fosse 1 real...). Na hora que a gente disse que ia embora o padre não deixou a gente ir antes de nos dar um presente em troca de nossa distribuição dos santinhos: uns desenhos de pássaros, muito bonitos, feitos com asas de borboleta. Era o pessoal das missões da África que os tinha feito (tadinhas das borboletas)...

Saindo da igreja continuamos na direção do castelo, mas parando várias vezes para tirar fotos... Fomos até um mosteiro lá em cima para ter uma das melhores vistas de cima da cidade. Depois disso visitamos uma igreja barroca no meio do caminho, e finalmente chegamos ao castelo. Logo na entrada haviam os guardas que não se mexiam (e eu tive que ir lá do lado dele para ver se não mexia mesmo... Mas vi que ele fica mexendo o olho... Isso não vale!). Entramos no castelo, passando pelas partes utilizadas hoje em dia pelo governo da República Tcheca (o presidente mora e trabalha em uma das alas) e praticamente fomos direto à igreja central. Uma igreja muito bonita, com vários mosaicos na parte de fora, mas cuja frente estava passando por reformas (sempre tem algum andaime nas construções que a gente vai visitar). Comprei o ticket combinado que dava direito a ver todos os museus de dentro do castelo, incluindo uma visita à torre da igreja (mais escadas! Aliás, muito mais escadas! Mas uma vista bonita, apesar de ser uma das piores das que a gente viu hoje...) e uma visita à uma parte da igreja que era fechada para quem não tinha pago e uma cripta com os restos mortais (se é que há alguma coisa ainda hoje em dia) de vários antigos reis... Outros museus incluíam o antigo castelo, que servia de moradia para os antigos imperadores da região, uma pequena basílica que guardava ossos de pessoas importantes (que não posso dizer quem são porque minha memória também não é assim tão boa), além de uma torre onde um dos reis queria transformar chumbo em ouro (e não conseguia, não sei porque) mas que foi transformada em um pequeno museu... Muitas das coisas não tinham explicações em inglês, tendo só em tcheco mesmo... Isso fazia a visita ficar um pouco mais difícil...

Continuamos o walking tour até o final, até passando por uma pequena casa onde Franz Kafka tinha morado durante uns 20 dias (ó que importante!), e por uma loja de cristais (muito legal! É uma das especialidades da região! Tem coisa em cristal que eu não acreditava que podia ser feito...). Tudo isso em uma pequena rua que era chamada rua dos ourives, porque era onde essas pessoas ficavam na época que era realmente utilizado como um castelo. Agora são várias lojinhas de souvenirs... A saída do castelo também era lotada de pintores com aquarelas (algumas até originais segundo eles falavam). Pensei em comprar uma, mas fiquei com medo de destruir tudo durante a viagem...

Só faltava uma coisa que eu não tinha visitado: a praça Venceslau, que é onde aconteceram várias revoluções na cidade, incluindo a Primavera de Praga em 1968 contra o comunismo. Foi uma pena só ter conseguido chegar lá de noite (além de anoitecer cedo, eu estava um pouco longe...). As luzes tinham começado a se acender quando chegamos lá, e esperamos para poder tirar uma foto com elas... Como sempre minhas fotos a noite ficam borradas (acho que eu fico tremendo de frio... Não consigo segurar a câmera quando ela tem um tempo de exposição maior...).

Tínhamos decidido jantar no mesmo lugar do dia anterior. Era um lugar que a gente comia muito bem e por um preço muito em conta. Maravilhas de Praga. Pedimos de tudo de novo... Pães com uns queijos malucos, um prato principal gigante (pra mim veio quase um frango inteiro...). Só que dessa vez tivemos um pequeno problema com a conta. A gente estava meio com dinheiro contado para pagar a conta, já que não queríamos pagar no cartão de crédito e não queríamos sacar de novo (são 3 euros de taxa fixa...). Dessa vez eles cobraram o couvert (?), cobraram 2 vezes o vinho e ainda por cima a taxa de serviço estava mais de 20%! Quando eu chamei o cara que mais sabia inglês e quem havia nos dado a conta, ele rapidamente tirou o vinho que ele cobrou duas vezes, mas ele simplesmente mudou o preço final... Ou seja, ele não arrumou o serviço cobrado em cima do vinho que ele tinha tirado. Além disso a gente não queria pagar o couvert, já que a gente não sabia que ele era tão caro (e aí não teríamos dinheiro líquido para pagar a conta). Veio um outro cara mais babaca ainda, que não sabia nada de inglês, para me dizer que o couvert tava certo porque ele era mais barato do que a gente pagaria em outros restaurantes... É uma dificuldade se comunicar com um cara babaca, que queria criar problemas, e que não sabe a sua língua e nem inglês... Eu fiquei muito puto com o cara, mas tivemos que pagar no cartão (o Daniel se ofereceu para dar o número naquele fim de mundo) e sair dali... Tentei não deixar isso estragar o dia.

Para fechar a noite, fomos a uma discoteca que tem como propaganda ser a maior discoteca do leste europeu (a do lado da ponte) por algumas horas, já que 5 da manhã deveríamos estar acordados... Realmente ela era muito grande, com bilhões de ambientes diferentes (eu achei 3 pistas, mas tinha mais uma eu acho, além de vários barezinhos). Foi muito interessante ver a quantidade de turistas lá (acho que não tinha muitos locais não...). E alias foi legal ouvir lambada brasileira de novo (a mesma música que tocou no nosso weekend de integração), em Praga! Bebemos umas duas cervejas, e fomos pra casa umas 2 da manhã... Frio pra caramba, e para dormir por umas 3 horas...

Dia 24/10/2001

Acho que eu nunca passei tanto calor em um ônibus. Eles ligaram o aquecimento dele (até porque lá fora estava bem frio) mas eu tive a sorte de ficar exatamente em um banco onde a saída do calor ficava exatamente sobre mim. Acordei várias vezes durante a noite suando, achando que era porque eu estava doente ou algo assim... Até que eu realmente acordei e vi que estava em cima da saída do aquecimento... Interessante.

Chegamos em Praga por volta de umas 11 horas. A cidade em si parecia meio suja, mas já com vários sinais de capitalismo: coca-cola, Carrefour... Tinha de tudo lá. Chegamos na estação de ônibus e já pegamos um mapa da cidade para poder descobrir onde era o albergue que a gente havia reservado. Uma velhinha nos abordou oferecendo alojamento (é comum, segundo os guias, pessoas oferecerem quartos na própria casa ou até o apartamento inteiro para turistas a fim de ganhar dinheiro) falando francês até muito bom. Mesmo a gente dizendo que já havia reservado o albergue ela continuou nos seguindo falando que teria feito mais barato e tal. Não tínhamos como mudar de lugar e falamos isso a ela, mas não teve jeito, ela foi atrás. Mas ela nos ajudou muito falando qual metrô e qual ônibus para chegar no albergue o mais rápido possível (lembrem-se que eu estava com uma mochila gigante, pesada, e meio doente ainda, com o corpo doendo). Foi com a gente até o ponto do último ônibus. Depois de descermos do ônibus, achando o albergue facilmente, fomos à recepção fazer o check-in. Mais uma transação no cartão de crédito. Aí eu acabei fazendo outra besteira. Achando que o quarto era perto, resolvi levar minha mochila na mão ao invés de leva-la nas costas, e isso me custou muito... O quarto era longe pra caramba, e ainda por cima era em outro prédio, subindo quatro andares de escadas. Recebemos uma chave para nós três e o cara ainda mostrou onde ficava os banheiros e a cozinha (onde tomaríamos café). O nosso quarto era dividido com mais duas pessoas. Só que não imaginávamos encontrar uma delas dormindo ainda àquela hora, ainda mais uma mulher. A gente fez uma bagunça que era impossível de ela continuar dormindo, mas acho que ela continuou deitada por vergonha de levantar na hora, sei lá. Resolvemos ainda colocar as mochilas dentro de um armário de metal que ficava no quarto, e que poderia ser fechado com um cadeado, mas foi uma dificuldade tremenda. Primeiro porque a mochila era muito grande e não cabia tão fácil assim no armário. Na minha foi necessário tirar as alças para poder colocá-la, e ainda assim ficou difícil... Fez barulho também para entrar porque era um armário de metal, e qualquer batidinha nele fazia um esporro. Outro problema era que alguém tinha forçado a porcaria da porta, e então nenhum cadeado conseguia ficar ali, pois as duas coisinhas estavam muito separadas e o cadeado não era tão grande assim. Com uma forcinha tudo se ajeita...

Saímos do quarto para começar a explorar logo a cidade, já que tínhamos perdido toda a manhã. Fizemos os planos lá fora e começaríamos por andar ali por perto do albergue mesmo, deixando o castelo para o outro dia. Fomos para a praça principal da cidade, com uma estátua no meio, e cheia de casinhas com arquiteturas bem diferentes. Em várias lojas de souvenir existem essas casinhas para comprar e montar a pracinha toda se quiser. Como uma reportagem que eu li sobre Praga disse, dava para ficar um dia inteiro naquela praça... Mas como não tínhamos o dia inteiro mesmo continuamos. Passamos pelo relógio mecânico que fica em um dos lados de uma torre na praça. Esse relógio, dizem a lenda, foi construído por um cara que o prefeito da cidade mandou cegar porque ele poderia fazer um tão bonito para outra cidade. Dizem também que o criador do relógio, mesmo cego, tirou uma peça do relógio e que demoraram mais de cem anos para descobrir o que estava faltando. Acreditem se quiser... A cada hora o relógio bate e as pequenas estátuas que ficam do lado do relógio se mexem... Acho que seria bem interessante, mas deixamos para ver o espetáculo na volta, já que iríamos passar pela praça de novo para passar para casa.

Fomos a uma sinagoga do circuito judeu da cidade, e descobrimos que existia um ticket conjunto para entrar em todos os museus judeus mas que só poderia ser comprado em outro. Fomos a esse, compramos e entramos. A primeira sinagoga era uma que tinha escrito os nomes de todas as famílias judaicas que tinham morrido na segunda guerra (eram paredes e mais paredes de nomes escritos, um absurdo). Para entrar na sinagoga os homens têm que usar aquele kippa (acho que é assim que escreve) como sinal de respeito. Eles fornecem uns chapeuzinhos vagabundos que não ficavam na cabeça de jeito nenhum, e toda hora eu tava catando ele no chão. Até fiquei com ele de souvenir de raiva. Algumas paredes tinham os nomes apagados. Durante a ocupação de Praga pelos soviéticos esses nomes foram sendo apagados por estes, mas eles davam a desculpa que era a erosão do tempo. Interessante... Saindo dessa sinagoga chegamos a um cemitério judaico, pequeno até, mas que tem mais de 20000 tumbas. Fica uma lápide em cima da outra, porque a partir de uma certa época eles só poderiam enterrar judeus nesse cemitério e, claro, ele ficou um pouco lotado... No espaço onde ficaria uma pessoa enterrada tinha até 8 pessoas enterradas em pé... Outras sinagogas seguiram essa primeira: uma que era chamada espanhola, que era bem bonita por dentro e tinha uma coleção de coisas dos judeus na época que eles foram removidos de Praga pelos nazistas; uma outra que tinha uma coleção de coisas falando sobre os hábitos e festas dos judeus; outra que era a Velha-Nova Sinagoga, que é a sinagoga mais velha de Praga; e uma que tinha uns tesouros dos judeus (prataria, ouro, essas coisas). Havia até excesso de informação, e no final do dia eu já estava cansado de tanto ver isso. Entre todas essas visitas a gente foi gastar um pouco de dinheiro comendo em uma pizzaria que ficava ali perto e que parecia ser muito boa. Na verdade era, mas eu não comi tanto quanto eu esperava. Pensava que as pizzas em um país do Leste seriam mais generosas...

Voltando para casa depois de tanta informação, ficamos passeando pela praça e por outros monumentos ali perto, como o teatro nacional e umas igrejas que ficavam por ali... Tinha começado (de novo) a chover, e a gente não ficou muito tempo por ali. Quando estava chegando na hora de bater o relógio fomos para a pracinha, mas ficamos enrolando tanto para tirar fotos ali que acabamos perdendo o horário e o relógio bateu... Eu só vi o final da cena.

À noite, para jantar, fomos a um restaurante indicado pelo Frommers (o guia). Era difícil pra caramba de achar a pequena ruazinha e o restaurante em si, por fora, não parecia muito promissor. Grande engano. Entramos e logo achamos uma mesa. Pegamos o cardápio em inglês e vimos que o preço da comida era ridiculamente baixo (em relação à França, claro). Resolvemos apelar e pedimos couvert, entrada, prato principal e sobremesa pra todo mundo. Ficou cerca de 30 francos no máximo para cada um... Isso em termos de França é uma maravilha. Eu ainda tava meio doente e acabei não comendo tanto assim... Meu prato principal foi metade de um frango mais um acompanhamento de batatas e arroz... Era muita comida pra mim, e fiquei até sem sobremesa. Acho que tinha comido muito pão do couvert. A mulher que nos atendeu praticamente não sabia falar inglês, mas tudo correu muito bem. Pagamos felizes e contentes.

Tínhamos combinado de ir a uma discoteca que ficava do lado da famosa ponte de Praga, a com as estátuas (ela aparece no filme Missão Impossível). Para fazer a digestão de tanta comida foi necessária uma caminhada por toda a ponte até o outro lado do rio, onde ficava uma igreja. Quando achamos que tínhamos andado demais, voltamos para a discoteca. Mas não entramos. Acho que não dormir bem depois de vários dias (acho que desde antes de Barcelona eu não dormia mais de 6 horas por noite ou não dormia em uma cama) e voltamos pra casa mesmo. Deixamos a noite de Praga para conhecer no dia seguinte mesmo. Chegando no albergue conhecemos a garota que tínhamos acordado (era uma australiana gordinha, cujo nome não lembro) e o outro elemento do quarto, um senhor já, solteiro, canadense, que todo o ano tira 2 meses para viajar e estava já no fim da viagem dele desse ano. O cara era ninja. Deitou numa posição e não se mexeu mais até acordar. Já tinha visitado mais coisa que o papa. Acho que esse vai virar meu ídolo de agora em diante...

Quarta-feira, Novembro 07, 2001

Dia 23/10/2001

Paris. Sempre uma cidade interessante. Chegamos de manhãzinha, com todo mundo acordado pela porcaria do conducteur do trem, dizendo que tínhamos chegado em Paris mas ainda demorou mais de 20 minutos para realmente chegar na estação. Eu poderia ter dormido mais. Além disso, estava com as dores tradicionais e mais algumas criadas pela posição horrível na qual dormi. Isso sim é viajar.

Já começamos pagando bilhetes de trem. Em Paris não tem jeito de não pagar metrô, porque as catracas são totalmente fechadas. E eu também não estava pensando muito nisso. Pegamos o metrô direto para a estação de ônibus, onde deixaríamos nossas coisas para poder passear pela cidade e depois voltar para pegar o ônibus para Praga. Lá encontraríamos o Daniel também. Chegando lá, que surpresa: o plano vigipirate dos franceses tinha desabilitado o guardador automático de bagagens de lá (com medo de que algum terrorista tivesse a idéia maravilhosa de colocar uma bomba dentro dele) e a gente não poderia guardar as nossas coisas lá. Quando o Daniel chegou perguntamos para alguém na estação e disseram que apenas na gare de Lyon (se não me engano) é que havia uma que funcionava, porque havia um aparelho de raios X antes de entrar nela. Vai ser paranóico assim nos EUA. Tivemos que ir para lá de qualquer maneira, porque aquilo já estava começando a ficar pesado demais. Lá não houve problema algum... Encontramos lá também um dos brasileiros que estão lá, e com ele fomos ao centre George Pompidou.

Esse lugar é um museu de arte moderna que foi construído de uma maneira diferente: os canos e estruturas foram construídos para o lado de fora, mostrando tudo. Queríamos entrar nele ou em um museu de arte oriental, mas descobrimos na porta deles que todos estavam fechados. Eles estavam fazendo greve contra alguma coisa que na hora eu nem queria saber de tanta raiva. Assim, nossas opções em Paris ficaram menos numerosas. Decidimos ir andando até a Notre Dame para entrar nela (eu não havia entrado na outra vez que estive lá, e nem lembro o porquê). Nos perdemos um pouco, e com o maravilhoso tempo de Paris (vai chover assim lá em São Paulo) ficamos um pouco molhados e com frio. Meu tênis estava um nojo, todo molhado... Quando chegamos lá na ilha onde ela fica parou de chover. Entramos na Saint-Chapelle antes porque ficava no caminho e a gente também não tinha visitado. Era uma capela construída para guardar os restos da cruz de Cristo (cuja autenticidade é duvidosa) comprados por algum rei francês de algum rei do oriente por muito dinheiro na época. Dizem que o dinheiro que ele pagou foi 2 vezes o preço da própria capela (que é bem riquinha se você a vir de perto). Só para entrar no lugar a gente passou por um raio X sinistro (esses franceses... tiraram um canivete suíço de um e um estilete do outro, pegando identidade e tudo! Será que eu mataria alguém com um estilete?) e ainda por cima acabou não entrando na capela porque era meio caro. Também nem queria tanto assim. Fomos à Notre-Dame vê-la por dentro, e ela é realmente maravilhosa. Muito grande, acabou de ser limpada por fora (é uma das poucas igrejas que eu vi que está branquinha) e o interior é belíssimo. Lá dentro tem um cartaz dizendo como ela foi construída, com uma pequena maquete mostrando algumas das cenas da construção.

Depois disso ficamos passeando de trem em Paris para chegar ao restaurante universitário onde encontramos mais um amigo do Daniel. Lá foi um dos melhores restaurantes universitários que eu já fui, com várias opções de prato principal, onde cada um você pode escolher de um a três acompanhamentos, dependendo da qualidade da comida no prato principal. Eu, como peguei uma carne grelhada com batata só tive um acompanhamento. Ao menos a carne era realmente de boi, e não era um hambúrguer, que é o que eles chamam de ‘bife’ por aqui... Foi muito boa a comida, e veio em uma boa hora, principalmente para quem não tinha tomado café da manhã.

Os dois brasileiros nos deixaram, e resolvemos ir para La Defense. Não havíamos ainda visitado o lugar porque ele é meio longe, e nos dias que eu tinha ficado em Paris eu não teria tempo de ir lá. Pegamos mais alguns tickets de metrô e fomos até lá. E não conseguimos sair da estação de primeira, porque nossos tickets não valiam para sair lá. Só conseguimos sair porque o Daniel havia pegado um ticket ilimitado de uma semana com um dos brasileiros, e esse funcionava em qualquer lugar. Usamo-lo 3 vezes (aliás, se eu começar a utilizar pronomes oblíquos durante minha escrita agora não é porque eu estou sendo pedante. É simplesmente porque isso é obrigatório em francês, e eu acho meio estranho escrever errado agora...).

Um parêntese sobre os tickets de metrô em Paris. Eles são uma merda. Esse sistema não funciona. Eles dizem que Paris é uma cidade grande, com 8 milhões de habitantes ou mais, mas essa é a grande Paris. A Paris de verdade para eles deve ter 200 mil, porque a região onde vale o ticket que eles vendem como ‘valable dans Paris’ só vale para umas 6 estações. Depois disso eu tenho que pagar muito mais porque eu estou em regiões que eles numeram 2, ou 3 (Paris é a região 1). E isso deve ter tipo uns 3 quilômetros. Vai querer roubar os outros assim lá longe. La Defense já era região 3. Devem ter feito isso porque o lugar é cheio de prédios de grandes companhias. E depois, quando fomos comprar tickets em La Defense, nem nos avisaram que era por isso que não funcionavam nossos bilhetes... Impressionante. Eu só fui descobrir isso muito depois, quando eu fiquei refletindo sobre o porquê dessas coisas não funcionarem.

Bom, continuando a história. O grande arco é bem grande mesmo, muito maior do que eu pensava. Com 100 metros de altura, e abrigando alguns escritórios (eu não sabia disso). Perto dele, vários prédios modernos, cada um de uma grande empresa francesa ou multinacional. Ficamos lá por uma ou duas horas andando (já que não tínhamos nada para fazer) e almoçamos no McDonalds. No meio tempo o Ivan ficava tentando pagar sua conta de telefone, que não tinha conseguido pagar em Toulouse, e não tinha conseguido pagar ainda por telefone também... O sistema da porcaria da France Telecom estava com problema. Visitamos também um ‘pequeno’ shopping que ficava por ali, com bilhões de lojas... Pra variar não achei meu cartão de memória, e quando achei ele estava 50% mais caro que o preço que eu conseguiria em Toulouse. E quando cansamos dessa vida difícil de turistas resolvemos voltar para a gare pegar nossas coisas, e ir para a estação de ônibus.

Finalmente fizemos o check-in sem problemas e entramos no ônibus. Só havia lugares perto do banheiro (não que isso seja tão ruim, mas sempre tem alguém que fica acordando no meio da noite para ir lá e nos acorda também). Aliás, o banheiro nesses ônibus que a gente pegou até hoje sempre eram no meio do ônibus... Eles ficam do lado da escadinha da saída no meio. Gasta menos espaço do que o banheiro nos ônibus no Brasil.

E assim começa realmente a viagem, partindo às 6 da tarde de Paris rumo a Praga. Ainda hoje paramos duas vezes, uma na França ainda para jantar e um pouco mais tarde na noite na Alemanha (onde não pude comprar nada, mesmo estando com muita sede, porque o lugar não aceitava cartões de crédito e eu obviamente não tinha marcos alemães).


Dia 22/10/2001

Nesse dia eu acabei acordando cedo para poder ir à minha primeira aula, e quando chego lá novamente tinham mudado a porcaria da aula para uma que eu não assistia... Assim não dá. Até que não foi tão ruim porque eu acabei checando tudo que eu deveria na internet, e assim já estava tudo mais ou menos pronto para viajar. Tirando que eu estava com todo o meu corpo doendo e não estava me sentindo muito bem, estava tranqüilo. Afinal, eu teria outro dia para descansar, e só iria sair no dia seguinte. Mas não. O Ivan queria ir para Paris antes, para ter a manhã de terça livre para visitar Paris... Eu não estava com muita vontade, mas acabei caindo na tentação e comecei a apressar minhas coisas, principalmente quando descobri que o cartão de memória para minha câmera não tinha chegado como eu havia encomendado... Assim, fui almoçar no N7, corri para o mercado para comprar comida (estava fechado infelizmente) e depois para a Decathlon para comprar finalmente meu colchão inflável (menos dinheiro na minha conta bancária). Fui para casa, arrumei rapidamente minhas coisas e estava pronto. O Ivan não estava, mas eu estava contando que o trem sairia às 5 e ele saia mais perto das 6... Então eu fui para o meu quarto novamente e fiquei tranqüilo, até dormi um pouco. Acordei perto das 5 horas e já comecei a ficar desesperado: nada do Ivan chegar. Bem... A gente acabou saindo só umas 5 e pouquinho, e chegou lá 2 minutos antes do trem partir. Mas, como sempre dizemos aqui, desolé. Perdemos o trem. E para nossa surpresa o próximo seria só 11 da noite. Legal não? Eu, com meu corpo todo doendo ainda, tive que carregar aquele peso todo nas minhas costas (é, uma mochila de 70 litros, mais uma mochilinha pequena cheia de comida e uma barraca não é mole não!) correndo para não perder o trem estava de novo num impasse. Será que eu voltava para casa? Achamos melhor não. Pagamos algumas dezenas de francos para deixar as mochilas na gare e fomos para o Arsenal comer e importunar os outros brasileiros. Chegando lá já os encontramos no refeitório, e ficamos lá até o momento de ir para a gare (a pé dessa vez, com bastante tempo de sobra). Estava um frio do caramba, e eu ainda estava com febre (além das tradicionais dores no corpo). Ainda bem que o Baiano me cedeu uns 2 comprimidos de anti-térmico para eu poder tomar... Só com um eu me senti um pouco melhor. Finalmente pegamos o trem, e agora oficialmente tinha começado a viagem.

Eu tinha começado a pensar se tinha sido uma boa escolha ter ido para Barcelona antes de fazer essa viagem...

Dia 21/10/2001

Esse último dia em Barcelona começou tarde porque eu deveria ter acordado cedo e esqueci de colocar algum despertador. Eu deveria tê-lo aproveitado mais e não aproveitei. Quase não adiantou eu tentar falar portunhol com o cara da estação de trem de Barcelona perguntando se eu deveria ir lá para trocar o horário da minha passagem (que era para sair de manhã e eu queria ficar mais tempo lá) ou se eu poderia ir sem problema às 5 da tarde. O cara me disse que não teria problemas, e lá estava eu, 11 horas da manhã, acordando. Poderia ter visitado muita coisa. Acordei e falei com o Sérgio e a Lúcia para sair e tomar café. Depois eles queriam assistir uma missa na Catedral e eu fui com eles para dar uma andada pelo bairro gótico. Na frente da Catedral, novamente, havia vários grupos de velhinhos (nessa hora não havia tantos jovens quanto na noite passada) dançando, e eu fiquei observando a catedral também, que era muito bonita. Passei também por uma praça de Sant Jaume onde tinha o Palau de la Generalitat (que eu não sei exatamente o que tem lá, mas sei que é um ponto turístico). Depois voltei para a Catedral e fui para o hotel onde me despedi dos dois, dizendo que eu iria para La Pedrera visitá-la nesse tempo livre que eu tinha ainda e depois ir embora. Deixei a minha mochila no quarto deles (eles me deram a chave para que eu pudesse chegar, pegar as coisas e ir embora na ausência deles) e fui para lá.

La Pedrera é uma casa gigante projetada pelo meu grande amigão Gaudí, como eu já havia dito. Nada lá é reto. Nem mesmo os corrimões da escada. Nem o teto, e nem as paredes. Isso é meio estranho a princípio, mas depois que você vê tudo torto você acaba se acostumando. De qualquer forma eu entrei, porque o preço de uma entrada de estudante com o desconto que eu ganhei por ter utilizado o ônibus turístico era enorme... O último andar é um museu sobre várias coisas de Gaudí, sobre várias de suas obras. Há várias apresentações multimídia das construções, entre elas a própria casa, a Sagrada Família, o parque Güell e muitos outros... Há também maquetes, e alguns vídeos mostrando como foram feitas as construções, modelos em computação gráficas de alguns dos prédios, essas coisas. Há também uma demonstração da técnica que ele utilizava que eu descrevi no outro dia, com o espelho embaixo mostrando exatamente como ficaria a cúpula... O cara era um gênio se foi ele que inventou aquilo. O terraço era um show à parte. Nada lá era reto (por que seria?) e tinha várias esculturas estranhíssimas. Junta-se a isso o fato de que havia um monte de pássaros em exposição lá, que deixava ainda mais estranho... Não dava para imaginar alguém morando em algum lugar desse.

O andar de baixo era uma exposição sobre a Espanha no último século, com vários utensílios utilizados, como geladeira, bomba de gasolina e muitas outras coisas. Eu passei rápido por essa exposição e pela próxima, um apartamento todo mobiliado como na época de Gaudí, que ficava no andar de baixo também. Lá também era interessante, com móveis, roupas, brinquedos (no quarto de crianças) da época... E, por último, em um salão de exposição que era gratuito para o público havia uma exposição de pinturas sobre o amor e a morte (ótimos temas, aliás), que eu dei uma passada rápida. Sempre tinha várias explicações sobre cada uma das pinturas, mas eu não estava mais com tempo, infelizmente, de checa-las uma a uma. Outro fato importante é que meu catalão não estava muito em dia.

Cheguei no quarto de hotel para pegar as minhas coisas e acabei encontrando os dois novamente. Eu achava que não iria mais vê-los, mas pelo menos ofereci meus donuts que eu havia comprado (donuts são maravilhosos!!) e que não iria agüentar nem a porrada. Era mais barato comprar 6 que comprar só os que eu queria. E, finalmente, fui para o metrô para me dirigir à estação. Felizmente no caminho até lá nada de ruim aconteceu, não me perdi nenhuma vez, e assim consegui pegar o meu trem.

Antes de entrar no trem eu fui vendo que havia vários franceses de Toulouse na mesma situação que eu (isto é, perdidos), e que não sabiam muito bem como fazer para voltar porque era a primeira vez. Isso me deixou muito mais confortável, porque se algo desse errado eu não seria o único a estar indo para Paris sem querer. Mas a viagem foi tranqüila e a gente chegou sãos e salvos a Toulouse depois de trocar de trem uma vez. Tive que esperar o bus de nuit da meia noite para poder voltar para casa, e fiquei muito feliz (apesar de ainda não gostar do meu quarto) de ver minha cama. A única coisa que eu consegui fazer antes de dormir foi olhar minhas fotos de viagem.


Dia 20/10/2001

Acordei até meio cedo para quem estava viajando. Às 9 horas eu já estava acordado, mas fiquei no quarto até me ligarem para tomar café. Era o último dia inteiro e com as lojas abertas que os dois iriam ficar lá, e por isso tiraram a manhã para comprar as lembranças e coisas do estilo. Eu saí com o Sérgio para comprar algumas das coisas enquanto a Lúcia foi para outro lado. Dividir para conquistar. Fomos só comer um pão com café (eu não tomo café, preferi tomar suco mesmo) e depois ficamos passeando pela cidade. Havia bilhões de pessoas nas ruas.

Fomos a uma loja de alpargatas muito antiga pelo que eu vi. Havia reportagens da loja em vários jornais (o próprio dono nos mostrou uma pasta com recortes e fotos da loja em várias épocas), e ainda por cima deu uma explicação de como é feita a alpargata. Ainda disse que as mais caras eram feitas à mão por ele mesmo ou pelo pai dele (o cara já era bem velho... fico imaginando o pai dele), e eram muito bonitas. Eu só fiquei lá para ver enquanto o Sérgio comprava algumas. Depois rolou um passeio pela cidade para encontrar uma loja de perfume na qual eu quase destruí o meu nariz cheirando perfumes. A loja se chamava Zaphora (acho que é isso) e era enorme. Acho que é uma das maiores do mundo (é a maior cadeia com certeza. Dizem que a loja da mesma cadeia na Champs-Elisées é muito maior). Acho que as mulheres fariam a festa lá. Ainda bem que não sou uma, e só fiquei testando. Aliás, nem fiquei só testando. Eu comprei um perfume, mas o Sérgio não deixou eu pagar...

Depois de mais um cafezinho (eu bebi um chocolate quente mesmo) e comer uns torrones (os torrones de lá, de vários tipos, são maravilhosos!), rolou um encontro com a Lúcia novamente no hotel para que pudéssemos pegar o ônibus turístico (com a parte de cima aberta) que nos levaria para visitar todos os pontos possíveis de Barcelona... Entramos no ônibus (indo para cima, obviamente), e fomos passeando.

Passamos primeiramente por umas casas projetadas por arquitetos muito doidos, dentre eles o Gaudí. Aliás, várias das coisas das quais eu vou falar foram projetadas por esse cara. Ele era o mais maluco de todos. Depois o ônibus passou pela frente do ‘La Pedrera’, que foi uma casa também projetada pelo dito cujo, e que não parece ter uma linha reta. Ela é toda torta. Eu falarei dela mais tarde porque hoje eu só passei por ela mesmo, de ônibus... Portanto foram praticamente 5 segundos de visão da casa.

Depois de passar por vários outros pontos menos importantes (porque não tinha nem parada do ônibus por lá), chegamos a uma pracinha que fica na frente da Sagrada Família. Só a visão inicial já assusta. É uma construção enorme, com 8 torres já construídas (segundo um dos papéis que eu li sobre ela, eram 18 torres no projeto original), sendo que várias outras partes continuam a ser postas em pé, e acham que os trabalhos vão durar vários anos ainda... Gaudí não viveu para ver sua obra-prima ficar pronta, segundo várias pessoas dizem. Entramos por uma das portas (do nada Barcelona ficou com um céu fechado, e exatamente na hora que entramos deu uma chuva bizarra) que era o portal da crucificação. Desse lado as estátuas são todas angulosas, sinistras. Há várias estátuas em cada fachada mostrando várias cenas da vida de Cristo. No caso dessa fachada, obviamente, são coisas relacionadas com sua morte. Na outra fachada já pronta, que fica do outro lado, ficam as cenas relacionadas com o nascimento de Jesus. Já nessa parte as estátuas estão muito mais humanas, expressivas... Dentro do templo da Sagrada Família já há algumas colunas construídas há pouco tempo, com materiais que parecem ser diferentes dos materiais utilizados nas primeiras fases... Há também um elevador para subir até as torres de uma das alas no qual eu subi. Lá em cima há pouca coisa realmente a se ver, porque as janelas são pequenas e não há outras construções muito perto dali... Algo que se dá pra ver são outras torres e só. Não aconselharia muita gente a subir, a não ser que seja para dizer que subiu. Fora também há alguns quadros mostrando como eles estão fazendo agora, com o auxilio do computador, o resto da construção. Hoje em dia há modelos matemáticos mostrando como vai ficar a torre depois de pronta, mas na época do Gaudí isso não era acessível. Por isso ele utilizou uma técnica muito interessante, que foi explicada melhor na Pedrera, mas ali havia já alguma coisa disso: Ele, utilizando pesos pendurados por cordas, sendo que os pesos simulavam exatamente o peso que a estrutura iria suportar, construía com essas cordas a cúpula, por exemplo, de ponta cabeça. Para ver como estava ficando a cúpula ele utilizava um espelho no chão, que mostrava como ficaria a cúpula vista de cima. É meio difícil de explicar em texto assim, mas quando se vê a foto de como funciona o negócio fica muito mais fácil. Eu tirei uma foto disso no último dia de Barcelona. No museu havia também fotos do quarto dele na Sagrada Família (na verdade era um cantinho sujo que ele chamava de quarto...) e pedras e desenhos originais do projeto, além de outras informações sobre Gaudí. Provavelmente alguém que vir minhas fotos vai perceber o quanto eu gostei desse lugar...

Depois de sair da Sagrada Família rolou um almoço com comida caseira pertinho dali. Acho que foi uma das melhores refeições que eu já comi até agora. Talvez porque eu estivesse com um pouquinho mais de fome do que o normal. Depois de alimentado, pegamos o ônibus novamente (é tipo uma linha que fica passando a cada 10 minutos) e fomos em direção ao parque Güell. A porcaria do ônibus de turismo deixa a gente um pouco longe do parque, e ainda por cima lá embaixo... A gente tem que subir um bom morrinho para poder chegar lá. O parque é uma outra doideira de Gaudí, que foi patrocinada pelo tal Güell, que pensava em pegar o parque e fazer tipo um condomínio, vendendo casas nesse parque, e ainda por cima vendendo para o governo algumas para servirem de edifícios públicos. A população da época achou tão louco o lugar que ninguém quis comprar, e o Güell foi doado ao governo de vez, virando atração turística. Pode-se notar muito bem nesse parque, bem como em todas as outras construções dele, que ele não gostava muito de linhas retas. Logo na entrada há alguns prédios totalmente tortos, e ainda por cima tem um réptil (que é vendido em tudo quanto lugar, até na versão de anti-stress) todo colorido... Há um lugar chamado ‘sala das 100 colunas’ onde nenhuma está completamente reta (isso segundo o guia). Subindo no parque há um mosaico gigante (considerado o maior do mundo) em volta de uma pequena praça (acho que seria uma praça pelo menos se o parque tivesse servido a alguma coisa)... Como havíamos comprado o ingresso de entrada combinado para entrar na Sagrada Família e na casa do Gaudí no parque, entramos na casa dele. Lá há vários móveis que também foram projetados por ele (o cara era um Bombril) e quadros e móveis da época dele também...

Depois subimos no ônibus e partimos. Há na verdade duas linhas de ônibus turísticos, que se cruzam em alguns pontos, e que cobrem juntos dois lados da cidade. No próximo ponto de cruzamento eu e o Sérgio descemos para poder dar uma olhada no outro lado da cidade. Passamos por alguns lugares muito legais, como por exemplo a Plaça d’Espanya, de onde dá para ver o chafariz que fica na frente do Museu de Arte da Catalunha (onde também tem outros prédios que sempre servem para exposições... por exemplo, estava tendo uma exposição sobre piscinas). Depois subimos uma montanha e passamos pela frente do estádio olímpico (das olimpíadas de Barcelona) e pela fundação Joan Miró (onde eu realmente não teria tempo de entrar, apesar de querer...). Passamos pelo porto velho também (onde tinha as discotecas), pelo mirante do Colombo (que fica sempre apontando para as Américas e onde a gente pode subir para ter uma vista da cidade) e pela vila olímpica. E, finalmente, passamos pelo bairro gótico, onde há a Catedral. Descemos um ponto antes da praça da Catalunha para poder dar uma passada por um monte de gente que estava reunido na frente da catedral e, assim, descobrir o porquê. Havia vários grupos dançando a sardana, que é a dança típica da região, e que foi proibida por Franco para tentar acabar com a cultura local mas não conseguiu... Segundo o que li sobre a cidade toda hora tem alguém dançando a tal da sardana por ali.

À noite rolou um super jantar, que seria o jantar de despedida da viagem deles, e acabou que eu entrei no negócio também, mesmo achando que não seria exatamente o meu lugar... Mas como me convidaram, quem sou eu para rejeitar. O jantar saiu super caro, mas eu comi muito bem. Tomei whisky com limão (tem um nome mas eu na minha cultura de uma criança de 2 anos não lembro) que parecia caipirinha, e depois bebi vinho (boa mistura hein!). A única coisa que eu entendi do cardápio era frango, e acabou que era frango caipira mesmo. Esse foi meu prato principal, juntamente com umas batatas. A entrada tinha sido um outro macarrão com molho de soja e outras coisas, que estava maravilhoso (e veio bastante ainda...). Ainda comi de sobremesa um sorvetinho com canela, que estava muito bom também... Voltei para casa feliz e contente, e dormi assim que deitei.

Dia 19/10/2001

Bom, como eu já havia dito ontem, eu teria uma viagem para Barcelona nesse dia, saindo daqui umas 10 da manhã e chegando lá perto de umas 5 da tarde... Por isso eu não conseguiria mesmo assistir a nenhuma aula, e nem pensei no caso. Acordei umas 2 horas antes para arrumar minhas coisas (utilizei pela primeira vez a mochila de 70 litros que eu comprei. Só que não a enchi toda, e coloquei minha pequena mochila dentro dela. Parecia que ela tinha uma filha...). Saí de casa e fui diretamente para a gare pegar o trem.

A viagem para Barcelona por esse caminho dura entre 6 e 7 horas. Não que seja longe, mas é que existe uma pequena barreira entre a França e a Espanha: os Pirineus. Assim, o trem que eu peguei ia bem devagar, passando por várias cidadezinhas minúsculas no meio das montanhas. Como a viagem foi durante o dia, foi uma vista muito bonita, mas às vezes dava raiva porque eu queria chegar logo e não queria ficar vendo montanhas... Troquei de trem na última cidade da França antes da fronteira (acho que é La Tour de Carol, se não me engano), pegando um trem espanhol dessa vez (bem diferente ficar vendo todos os avisos em espanhol ao invés de francês dentro do trem). Os bancos já eram diferentes mas ainda dava para dormir um bocado. Dentro do trem havia uns grupos de espanhóis já que, como alguns devem saber, não calam a boca nenhum momento praticamente. Dormi de novo no trem, e me acordaram em algum momento da viagem: era o controlador espanhol, que só falou uma palavra ‘Lá!’. Era para eu trocar de trem novamente, e agora eu iria pegar um trem regional para chegar em Barcelona. Parecia mais um metrô, dada a quantidade de pessoas que entrava e saía a cada estação... Eu com minha mochila gigante já estava meio estranho no meio do pessoal, que parecia que estava voltando para casa ou algo do estilo (já era umas 3 ou 4 horas da tarde).Obviamente a grande maioria deles era espanhol... (e eu sempre com o meu ódio com essa língua feia).

Segundo o Sérgio tinha falado, eles estavam hospedados perto da praça da Catalunha, e eu deveria ir até lá para encontra-los no hotel e fazer meu check-in. Como eu não sabia quando eu tinha realmente chegado ou não em Barcelona (o trem parava em todas as estações no caminho) eu já estava meio apreensivo. Em um momento eu vi escrito no nome da estação ‘Catalunha’ e resolvi saltar. Quase que eu achei que fiz besteira, porque um dos caras que estava no trem também e que tinha saído de Toulouse não saltou nessa estação... Eu resolvi sair assim mesmo (o trem já tinha ido e eu não sabia se viria algum outro trem parecido indo pro mesmo lugar) e tentei sair da estação também. Só que havia um problema. Para sair da estação de metrô em Barcelona (sim, eu estava num metrô mesmo no final das contas) eu teria que colocar meu ticket na catraca da saída também. Só que eu não tinha ticket, ora bolas! Eu fiquei lá meio perdido até que eu pensei: ah, vou sair atrás de alguém mesmo, e vamos ver no que dá. A catraca era uma portinha que abria, deixava uma pessoa passar, e fechava. Tinha tipo um sensor para ver isso. Então era praticamente impossível eu sair atrás de alguém. Mas algo bem interessante aconteceu. Do nada um velhinho e uma velhinha, não relacionados entre ele, foram colocar o bilhete em duas catracas adjacentes para sair. O velhinho, sem querer, colocou na catraca errada, abrindo a da esquerda. A velhinha, que pelo jeito também estava perdida, seguiu o velhinho, colocando por sua vez na outra catraca, e saindo pela do velhinho. Eu, que malandramente vi o negócio, saí pela que a velhinha tinha aberto, e acabei deixando o senhor lá perdido sem saber o que fazer. Ele pelo menos tinha o ticket para colocar de novo e sair... Eu não. Fiquei rodando um pouco pela estação porque ela era gigante, sem saber muito bem para onde ir. Normalmente na França e na Alemanha existem uns mapas da cidade no metrô mostrando por onde passam as linhas... Em Barcelona eu não estava achando. Então eu fui a uma banca para ver se havia um mapa, e descobri que havia mas custava 200 pesetas. Um problema. Eu não tinha pesetas. Então saí para ver o que tinha na praça... Lá fora, em um ponto de ônibus, descobri um pequeno mapa mostrando a praça e as ruas em volta, e descobri que tinha acertado a parada. Fui andando para a rua do hotel, e no meio do caminho havia um quiosque de informação para turistas. Lá eu tirei dinheiro, e acabei pegando um mapa da cidade também (depois eu comprei aquele mapa porque acabei querendo um mais detalhado... e era barato também). O problema é nunca saber quanto dinheiro é necessário... Tirei 4000 achando que seria muito, mas depois descobri que se eu realmente necessitasse desse dinheiro para viver lá eu teria que ter feito mais algumas retiradas...

Cheguei finalmente na rua do hotel. Era uma rua cheia de lojas chiques e que só passavam pedestres. A rua estava muito cheia àquela hora (acho que de turistas também), e até ouvi alguém falar português quando eu passei... Cheguei finalmente ao hotel e vi que era um 3 estrelas... Já fiquei com medo do preço. Quando entrei, com minha roupa e meu mochilão o cara da recepção já olhou meio torto. Cheguei para ele e perguntei, em inglês mesmo, se havia uma reserva no meu nome. A primeira coisa que ele me falou é “o quarto custa 20000 pesetas mais taxas”. Eu falei que ok, que o preço parecia bem legal, mas eu queria saber era se havia a porcaria da reserva ou não. Acho que ele achou ainda que eu estava errado, porque aquele hotel não seria pra mim, que eu deveria estar indo para o albergue e estava enganado de lugar... Aí ele finalmente achou o nome do Sérgio (que eu estava falando meia hora que ele estava lá e que era ele que tinha feito a reserva) e achou meu nome na lista de reservas... Ele rapidamente pegou meu passaporte e meu cartão de crédito para tirar cópias (provavelmente para eu não fugir depois de ficar no hotel dele...). Eu fui para o meu quarto (com um cara carregando minha mochila, que chique!) e lá eu vi que ele era pelo menos umas 2 vezes, quase 3 vezes, maior que meu quarto no Chapou. Um banheiro enorme, uma cama praticamente de casal de tão grande, tv... Tava bem tranqüilo lá para mim. Aproveitei para tomar um banho e colocar uma roupa porque depois de 7 horas de viagem ninguém está muito bem arrumado. Depois de um tempo lá resolvi descer para descobrir qual era o quarto do Sérgio e da mulher dele, e quando eu estava tentando perguntar isso (e o pessoal da recepção não me dizia), o próprio liga para a recepção para perguntar por mim. Eu espero eles descerem e saí com o Sérgio para colocar o papo em dia e para colocar algumas coisas no correio... Na volta para o hotel a gente foi comer alguma coisa em um restaurante onde o Picasso ficava sempre (era um amigo de Picasso que havia aberto o restaurante) chamado Os Quatro Gatos... Comemos uns pães nos quais eles passam tomate (fica vermelhinho e molhado, muito gostoso) com algumas coisas em cima, como queijo, atum, salmão, essas coisas... Foi bom porque eu não havia almoçado (só a farofa habitual do viajante capes) e estava com um pouco de fome.

Voltei para o hotel para colocar um casaco e sair de novo com eles, porque eles tinham comprado ingressos para um show dentro do Palácio da Música Catalã. Era um lugar que eles não conseguiam entrar durante o dia sem uma visita guiada, e resolveram pagar por um show que eles não sabiam quem seria só para poder visitá-lo... O lugar era muito legal, todo cheio de detalhes (acho que consegui tirar uma foto um pouco borrada de lá porque estava meio escuro)... O show em si foi uma surpresa muito engraçada. Era tipo um Roberto Carlos catalão (sendo que nenhum de nós nunca tinha ouvido falar de tal figura). Havia gerações se encontrando vendo o show... Garotas e vovós... E todos sabendo cantar as músicas do cara... Foi até interessante. Fiquei surpreso de ter gostado tanto. Pena que eu não entendia nada do que o cara falava nem cantava. Mas isso não estragou de jeito nenhum a noite. Depois do show (que demorou mais de 2 horas, porque era a volta do cara depois de vários anos longe dos palcos... até nisso a gente deu azar), a gente saiu para jantar. Infelizmente não havia muitos lugares abertos àquela hora, e ficamos andando pela cidade para tentar achar algum restaurante do guia de Barcelona que estava com a mulher do Sérgio (que se chama Lucia, aliás). Vários deles estavam fechados também, e encontramos, depois de muito andar, um lugar que vendia uns ‘tapas’ gigantes. Comemos bastante até. Depois fomos passear por um lugar no antigo porto da cidade que só tinha discotecas. Lá, segundo falaram, a noite só acaba de manhã. Como o Sérgio e sua mulher não ficaram muito tempo lá, eu voltei para o hotel com eles a pé e resolvi dormir também... Afinal, eram quase 3 horas da manhã, e não tinha muito mais o que fazer. Além disso as 7 horas de viagem de trem já me haviam matado o suficiente.

Dia 18/10/2001

Eu não tinha aulas hoje, mas acordei para acessar a internet e ver se o Sérgio (que havia me ligado ontem de Barcelona) tinha me mandado alguma outra informação sobre a minha ida até lá. Como não tinha eu fiquei procurando preços e horários das passagens de trem para ir até lá. Só achava viagens caras e que demoravam 6 horas... Eu já estava começando a desistir de ir... Mandei as informações que eu tinha compilado, mas já pensando 2 vezes se eu iria...

Almocei com a galera, e fiquei ouvindo o plano de viagens deles... Tem dois que vão para a Turquia (4100 francos, tudo pago), outros estão indo para a Espanha... Vai ser legal depois para trocar as experiências nas viagens e escolher as próximas... Fiquei sabendo que o Daniel (que vai comigo para o leste europeu) vai para Paris no sábado já começando a viagem... Entre ficar aqui, ir a Paris, e ir a Barcelona eu não sabia o que eu preferiria... Só sabia que se eu fosse para Paris deveria ter que começar a viagem muito mais cedo do que o esperado, e então teria que correr com os preparativos... Fui até a gare para saber sobre as passagens para Barcelona, e lá que eu fiquei com a maior dúvida... Os preços estavam ainda maiores que na internet (que diabos!). Por isso fui até a seção de viagens internacionais perguntar para a mulher qual era realmente o preço, e recebi o menor de todos que eu já tinha consultado hoje: 106 francos a ida, e 212 ida-volta (óbvio!). Achei barato o suficiente, e gastei alguns dos dólares (30) para pagar a passagem, fazendo o câmbio mais interessante da França no momento: 7,24 francos por dólar. As casas de câmbio com a melhor taxa que a gente já tinha visto não passavam de 6,85... Eu viajaria amanhã e voltaria no domingo (matando mais uma aula... pas grave), mas pelo menos eu teria mais a segunda feira para arrumar minhas coisas e descansar antes de viajar mesmo. E ainda por cima tem vários assuntos que eu queria resolver na segunda (a minha lista de matérias que eu vou cursar aqui tá até hoje sendo esperada... eu tenho que comprar outro cartão de memória para minha câmera... Essas coisas básicas...). Espero que dê tudo em um dia...

Cortei cabelo mais uma vez na França, e mais uma vez quiseram fazer meu cabelo ficar que nem os franceses ‘moderninhos’. Dessa vez foram mais bem sucedidos que da outra, e agora meu cabelo tem um topetinho horrível (com gel), mas como eu não uso gel ele vai ficar normal... Francês geralmente usa um cabelo todo sinistro, colorido, espetado, despenteado... É meio estranho... Prefiro o cabelo normal mesmo.

Dia 17/10/2001

Dia que eu tirei para ir ao Daniel Faucher buscar mais algumas roupas. Já que eu vou ter que ficar mais de um mês aqui, achei melhor fazer isso logo. Ainda tinha também que resolver o assunto do meu correio, porque eu não tinha recebido nenhuma carta desde que eu me mudei para cá, mas deveriam ter chegado porque o CROUS tem uma lista de quem está aqui... Bem, resolvi ir lá para conferir.

Peguei minha bicicleta e minha mochila (aquela bem pequena...) e fui para lá. Meia hora de bicicleta. Sinceramente eu achava que ia ser mais, mas quem sou eu para reclamar disso... Chegando lá, tem toda uma burocracia para entrar no meu apartamento. Tive que assinar em um caderninho dizendo que eu tiro toda a responsabilidade do CROUS porque eu quero entrar no prédio, que pode acontecer alguma coisa... Isso que eu já entrei umas 3 vezes e nunca ninguém tinha me pedido nada. Quando eu peço para ver o correio, o que eu encontro lá? As minhas cartas, óbvio, na verdade várias, e descubro que eles não sabiam que eu estava aqui... Agora eles sabem, e provavelmente as cartas vão chegar para mim diretamente... Uma das cartas era o que eu precisava para abrir de vez a conta no banco, senão eles iriam bloquear o meu cartão...

Bem, com o capacete que me deram (é! Teria que entrar de capacete!), eu entrei e fui até o meu quarto... Tá lá, quase da mesma maneira. A única coisa diferente foi que eles tiraram o vidro que estava quebrado, e colocaram um ‘ok’ nos outros vidros. Em todo o nosso prédio foi só isso que fizeram. A mulher que me levou até o prédio (agora alguém tem que me encaminhar até lá...) disse que realmente o nosso prédio vai ser um dos últimos (quando eu ouço isso eu escuto ‘vai ser o último e não enche!’)... Não posso fazer nada mesmo... Peguei o máximo de coisa que podia, colocando tudo dentro da minha mochila, até que ela dissesse chega (e mesmo assim eu queria pegar mais coisas que eu deixei lá...) e saí para voltar para casa... Imaginem eu voltando de bicicleta com aquela mochila de 70 litros andando pelas ruas de Toulouse. Eu parecia uma tartaruga motorizada (acho que o pessoal da rua pensava isso também, de tanto que olhavam para mim). Ao menos não foi tão traumatizante quanto a minha mudança do INSA para cá... Não ficou nada doendo depois...

Depois disso foi hora de ir para a faculdade... Só tinha uma aula mesmo, e fiquei nessa aula tentando entender as porcarias de lógica que o professor punha no quadro, e ainda por cima tentando entender o que o cara falava, porque é o único professor que fala para dentro... Ainda tinha um amigo marroquino que ficou do meu lado, e ele só ficava perguntando coisas, e falando árabe comigo (enquanto eu falava português com ele). Como ninguém se entendia, era engraçado (e os outros não entendiam nada que estava acontecendo). Mas eu não entendia a aula também... Bem, depois eu entendo quando conseguir ler o que eu copiei...

À noite festejamos o aniversário do Ivan com umas cervejinhas em um bar perto da residência dos outros brasileiros... Também tinha duas americanas amigas do Ivan que estavam lá, e acabou que a gente falou muito mais inglês do que qualquer outra língua... Foi divertido de qualquer maneira, menos a parte que eu tinha que ir pegar minha bicicleta, porque eu a tinha deixado em um lugar meio escuro, e estava com um pouco de medo de ela não estar lá... Mas estava... Também, com a corrente que eu comprei, se um cara conseguir quebrar aquilo é porque o cara é ninja...